tive um irmão.
ou não chegamos a ser irmãos porque morreu antes de eu nascer.
foi por causa do meu irmão que nasci em casa.
ele nasceu numa maternidade e não era perfeito.
a minha mãe acha que lhe trocaram o filho na maternidade, mas eu acho que não, nas fotografias o bébé é parecido com o avô estevão.
é engraçado eu achar isso, porque nunca acho que os bébés se pareçam com ninguém.
seja como for, o meu irmão, que tinha o nome do meu pai e o nome do meu tio que me criou, não tinha a boca completamente formada.
contaram-me que não tinha a língua nem o céu da boca completos.
a minha mãe diz que quando pegou no filho viu que ele era perfeito, mas as mães contam os dedos dos pés e os dedos das mãos e não sei de nenhuma mãe que tenha aberto a boca ao filho para lhe ver o interior.
o meu irmão morreu oito ou nove meses depois de ter nascido, não se conseguia alimentar.
por causa do meu irmão eu fui uma espécie de bébé milagre.
diziam que a minha mãe só podia ter filhos deficientes, até ela ir ao doutor gastão, o bruxo da venda nova, que lhe garantiu que não era assim.
quando eu nasci a minha mãe já tinha feito abortos e tinha engordado mais de 20 quilos, não fossem os desejos de grávida não satisfeitos fazerem com que eu nascesse com um terceiro olho na testa.
eu nasci em casa, com mais de 5 quilos, não admira que ela não gostasse de mim.
e eu ressenti-me, recusei-lhe o leite como ela me recusou o amor.
eu fui desejada por todos menos provavelmente por ela.
para ela eu fui o cumprir duma obrigação, o dar uma alegria a todos para que a deixassem em paz.
ela teve-me porque o meu pai queria ter filhos e porque a irmã não os podia ter.
e demitiu-se de funções no minuto a seguir.
deixou-os criarem-me, a parte dela estava feita.
o meu irmão era um bébé comprido.
suponho que esgotou o stock de genes bons e me deixou por destino ser baixa e gorda.
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