segunda-feira, 26 de novembro de 2012

recado

nunca pensem que me conhecem.
eu sou complicada nesta aparente simplicidade.
nada linear ou previsível.
tenho neuras e amoques.
um lado lunar.
não me tomem por garantida.
sou muito pior do que imaginam.
apenas deixem-me estar.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

a falta que me faz um pano para os óculos

a falta que me faz um pano para os óculos, nunca sei deles, e há uns tão giros e grandes à venda nos correios.
todos os anos lhe faço listas de presentes de natal que gostava de receber.
duas listas.
uma com presentes até cinquenta euros e outra com presentes até cem.
sei que ele nunca me vai comprar nada daquelas listas.
e todos os anos me oferece o meu perfume, porque eu só uso aquele perfume.
ou então oferece-me um gadget para o computador ou para o telemóvel, algo que eu jamais compraria.
ou uma moldura digital (está em casa da minha mãe) ou uma caixa de maquilhagem com centenas de sombras e eu só uso rímel e lápis nos olhos.
eu ofereço-lhe relógios.
sempre relógios.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

deus está nos pormenores *

a pior coisa que me podem dizer é "não se nota quase nada" ou "quem não sabe não repara".
basta que eu saiba e já não me serve.
sou perfecionista.
não me importo de recomeçar quando já vou a mais de meio.
mas não consigo viver a saber que aquele infímo pormenor em que supostamente ninguém repara está lá.
porque eu sei.
isto a propósito de outro dia me terem dito que o meu chefe lamentou a minha saída dizendo "havia coisas em que ela era mesmo boa".
you damn right I'm damn good.
não havia coisas em que eu era mesmo boa, chefinho.
eu era boa em tudo.
e nalgumas coisas era excelente.
o problema agora é colocar isso por escrito numa folha de papel chamada currículo.
eu já fiz tanta coisa e parece que não fiz nada.
o problema agora é ter de omitir os pormenores.

(a frase é de Frank Lloyd Wright *)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

o sono

tenho de parar de acordar às duas da tarde.
só ter três horas de luz natural é estranho.
é como estar a viver na finlândia mas sem a parte boa, que é o nível de desenvolvimento, as políticas sociais e a baixíssima taxa de desemprego do país.
não que eu seja uma pessoa noturna, que não sou, apesar de ter a teoria de que nunca se conhece completamente um homem até o levarmos para a noite.
mas isso são outras histórias doutros tempos, tão longínquos como a finlândia.
acontece-me isto amíude, trocar as horas.
nunca percebi este paradoxo de gostar tanto de dormir mas de detestar ir para a cama.
parece-me sempre uma perda de tempo e nunca tenho muito sono.
até que tenho um sono impossível de aguentar.
mas gostava que o processo de adormecer fosse mais simples, uma espécie de apagão.
quando o meu eu precisasse de dormir, desligava-se, onde quer que estivesse.
e depois tornava a ligar-se.
sem este processo complicado que é precisar de se deitar numa cama.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

a dra. maria josé

tenho a sorte de ter um boa médica de família.
sempre gostei dela, apesar de a temer por ser tão ríspida.
nunca foi uma mulher doce, sempre usou as palavras como espadas e eu sempre fui uma doente em sentido.
mas sempre foi rigorosa e atenta no seu exame.
e isso tranquilizava-me.
há cinco anos que não nos víamos.
eu trabalhava numa empresa com um bom seguro de saúde e caía mal faltar uma manhã inteira para ir ao médico no centro de saúde.
deve ser esse o maior defeito da minha médica, chegar sempre muito atrasada.
mas fazia cinco anos que não nos víamos e a vida passou para ambas.
a mim trouxe-me o desemprego recente.
a ela trouxe-lhe um cancro.
e outra doçura ao olhar.
senti-me num reencontro com uma velha amiga.
mas o que me confirmou mesmo  que as coisas mudaram foram as palavras "você está com um bocadinho de peso a mais".
ela dizia-me sempre "você está gorda! muito gorda!".

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ai a idade

acabo de perceber que a idade traz dores de costas e leva a paciência.
olha, paciência!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

outra vez a gata

e escrever com um focinho de gato entre o ecrã e o teclado?
muito giro.
e empurrá-la?
era bom se resultasse.
mete a cabeça entre o ecrã e o teclado e parece feita de chumbo quando a tento desviar.
não mexe.
mas morde.

ah é verdade

ganchos.
ganchos de cabelo também desaparecem nesta casa.

lulas recheadas com puré de batata e leite com chocolate

todos temos os nossos dramas pessoais e o meu são as meias.
já tenho frio nos pés e nunca encontro um par de meias que seja um par.
só tenho meias desirmanadas.
não sei como faço isto, não sei que lhes acontece, mas para onde raio irão as meias?
isso e ter uma gata a ocupar o meu lugar no sofá de cada vez que me levanto.
por estes dias esforço-me para fingir normalidade.
mas nada em mim é normal.
levo o dia alapada entre o sofá e a cama a pensar que nunca mais vou trabalhar.
voltei a ter fome mas como aos bocadinhos.
hoje almocei duas vezes, às 2h e às 4h e agora estou a beber leite com chocolate.
se tivesse meo aposto que levava o dia a ver a casa dos segredos.
how sad is that?

domingo, 4 de novembro de 2012

nós e os outros

nós não somos só nós.
somos o somatório duma data de gente que existiu antes de nós.
quando os meus avós morreram eu quis saber quem tinham sido os meus bisavós.
e a minha mãe não sabia quase nada sobre eles, os seus avós.
a vida era diferente e mais dura, menos dada aos afetos e aos registos.
ainda assim, procurei.
tenho certidões de nascimento e certidões de óbito dos meus bisavós.
mas são papéis que não contam histórias e, além dos nomes, não sei nada deles.
gostava muito de ter uma fotografia, uma carta, um vestido, uma madeixa de cabelo.
mas não sei quem sou para além dos meus avós.
sei de quem me vem o cabelo rebelde e os olhos castanhos caídos.
acho eu.
gostava de  saber como eram os meus bisavós, se já tinham olhos verdes como a minha avó, se eram altos como o meu avô, se eram bondosos, se eram felizes.
a avó Céu só se chamava Maria do Céu até se casar.
e uma pessoa não precisa de mais que nome próprio para ser recordada, é verdade.
não procuro um brasão.
a minha mãe só foi registada dez dias depois de nascer e eu nunca sei se o aniversário que festejamos é mesmo a data em que ela nasceu.
eu não sou só eu.
eu sou também a minha mãe e já há coisas que não sei sobre ela.


sábado, 3 de novembro de 2012

ai o natal

já estava a estranhar não me chegar a euforia do natal, deve ser por passar mais tempo em casa e o comércio de bairro ainda ter as montras cheias de bruxas.
sempre gostei tanto do natal, de enfeitar tudo, há um ano por esta hora estariam a perguntar-me quando enfeitava o escritório.
este ano tenho uma data de bonecos de natal excedentes, sem destino, mas hei de lhes arranjar lugar.
a minha melhor recordação de natal é, mais uma vez, em Elvas.
é uma coisa difusa, uma espécie de flashback, eu nos meu quinze anos sózinha no meio duma rua cheia de luzes e de gente, a minha prima a namoriscar à porta do cinema, um frio de rachar e uma canção da Dina a tocar... pérola rosa verde limão marfim...
antes, muito antes, o natal começava quando chegava a Elvas e a avó Céu estava ao cimo da rua, à porta de casa, de braços abertos.
a rua mais íngreme de Elvas tinha como prémio pela dura subida o abraço mais terno e os olhos mais brilhantes do mundo.
a avó Céu tinha sempre colo e tinha sempre contos e tinha sempre um chocolate na árvore para cada neto.
a minha avó Céu fazia-me sempre sentir especial e com ela todas as coisas eram uma aventura.
desses natais não me lembro dos presentes.
lembro-me de acordar cedo para ir buscar ovos ao galinheiro, de tomar banho em alguidares de cobre, dos beijos molhados e apertados da avó, do avô a enrolar cigarros e a sorrir, das brasas na camilha onde nos sentávamos a bebericar chá e a comer biscoitos quando ficava escuro lá fora.
e depois vinham os primos e os tios e os primos da mãe e mais gente, muita gente.
mas de quem me lembro mais é da avó Céu.