terça-feira, 30 de abril de 2013

{onde estavas tu no 1º de maio?}

eu estava algures entre o largo do carmo e a avenida da liberdade às cavalitas do meu pai.
tenho na memória as ruas cheias de gente e um mar de cravos vermelhos.
e de repente um homem numa varanda e a multidão a gritar otelo.
tinha 4 anos e o meu pai disse-me "não tenhas medo".
como se ao lado dele eu tivesse medo de alguma coisa.
e essa foi a herança que o meu pai me deixou: um espírito combativo e curioso, um coração corajoso e o respeito pela liberdade.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

{idiota}

tive uma ideia que pode ser a ideia.
e desde que pensei nisso que durmo mal, tenho cada vez mais ideias acerca da ideia e a minha cabeça está um caos.
procuro, investigo e tenho mais ideias e mudo de ideias.
por estes dias não tenho escrito, só tenho lido e pensado e tido ideias.
preciso de respirar fundo e de fazer um plano.
não se preocupem, não é a roda nem a pólvora, não me parece que vá mudar o mundo, talvez traga vida ao meu mundo.
é só uma ideia sobre algo de que sempre gostei.
assim que parar de ter ideias e conseguir avançar, vos contarei.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

{enxaqueca}

deitei-me com dor de cabeça e acordei com enxaqueca apesar do comprimido.
passei um dia horrível.
é noite e ele liga-me para me perguntar se a minha conhecida que trabalha na farmácia se chama mafalda teixeira.
respondo-lhe que a única pessoa que conheço com esse nome é aquela atriz que namora com o kapinha.
diz que viu o nome na bata e que pensou que podia ser a minha conhecida porque era loura e o atendeu muito bem.
tinha franja, pergunto eu.
sei lá, responde ele, diz que não reparou.
como é que falas com uma pessoa e não sabes dizer se tinha franja, insisto.
e ele exalta-se, começa a argumentar que não vai à farmácia para reparar nas mulheres, fica chateado.
recapitulando: ele não se lembra se a pessoa que olhou nos olhos ao falar tinha franja, mas do nome que costuma estar pendurado na bata à altura do peito ele lembra-se.
certo.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

{16}

hoje a minha gata faz 16 anos.
tem direito a comer um pastel de nata.
e a ser mais apertada e beijada que o costume.
não imagino a minha vida sem ela.
mas depois vejo na televisão pessoas que guardam as cinzas do gato falecido num envelope de linho bordado e penso que são doidas.
as cinzas não se desfazem e misturam com o linho?

segunda-feira, 22 de abril de 2013

{os sem terra}

vi agora que hoje é o dia da terra e lembrei-me como às vezes me sentia só por não ter terra.
nasci e cresci na cidade, a minha terra.
era na minha terra que eu vivia, ia à escola, tinha os amigos.
depois chegava o verão e eu passava os três meses de férias sozinha, sem ter com quem brincar, porque todos tinham ido para a terra.
e eu já estava na minha terra.
quando ía para elvas era a terra da minha mãe e eu continuava a ser uma míuda da cidade noutra cidade.
nunca brinquei na terra.
nas minhas memórias de infância não há cheiro a terra, nem sabor de fruta arrancada das árvores, não há joelhos esfolados nem mergulhos no rio.
aliás, lembro-me que uma vez em elvas a minha família foi toda fazer um piquenique para o guadiana.
lembro-me que fomos muito cedo, ainda estava escuro, não sei porque fomos tão cedo.
lembro-me de me ter aproximado da beira do rio e do nojo ao ver a água esverdeada com mosquitos a pairar e ao sentir o lodo debaixo dos pés.
deve ter sido a única vez na vida em que molhei os pés num rio.
e lembro-me que a minha prima mais nova destravou o carro do avô, o meu tio 'mexias', que só parou com as rodas da frente já dentro de água, nós as primas mais velhas a gritar e os homens a tentarem segurar o carro com a gaiata lá dentro.
em elvas eu não brincava com os outros míudos, que corriam pelo castelo e se sujavam e eram mais pobres.
só brincava com os primos e em casa.
por isso nunca percebi esse entusiasmo com a terra, essa sede de regresso e o sossegar do coração ao matar saudades.
aliás, eu não gostava da terra, essa entidade abstrata que me roubava os amigos.
mas tenho pena de não ter uma terra, deve ser bom poder fugir para algum lugar onde nos sintamos bem, um lugar aonde sintamos que pertencemos.
eu não tenho terra.


{anti-fashionista}

perco horas a ver lojas online.
sapatos, preciso sempre de sapatos.
e malas.
depois, in loco, entro e saio das lojas de mãos a abanar.
não me identifico com o que vejo, afinal não preciso de nada daquilo.
e do que gosto chego à conclusão que tenho parecido.
aliás, o meu gosto está a mudar.
cada vez menos me apetece aperaltar tanto e já não consigo usar saltos altos todo o dia.
estou capaz de viver só com leggings, camisolas e sabrinas.
ando há mais de um mês para comprar uma camisa, já vi várias como eu queria, mas se gosto do tecido não gosto da cor, se gosto da cor tenho dúvidas no tamanho.
talvez fosse bom chegar a experimentar uma, só para variar.

sábado, 20 de abril de 2013

{estava um dia de sol como hoje}

cresci a ouvir dizer 'é toda pai'.
e eu não me importava, sabes como eu não gostava de nada que tivesse a ver com ela.
estive a ver fotos antigas, de quando era muito pequena e tinha os teus olhos, pequenos.
os olhos da avó ana, nunca falo da avó ana.
agora tenho os olhos dela, grandes e caídos, mas já não me importo de me parecer com ela.
como podem uns olhos mudar tanto?
tenho saudades tuas.
sempre.
eu ía dizer que hoje, de todos os dias, é o dia em que me lembro mais de ti.
que não é do dia em que me deixaste de que me lembro mais, que é do dia em que te deixei.
mas ontem fizeste-me tanta falta...
durante muito tempo senti-te perto, agora já não.
espero que tenhas seguido o teu caminho.
espero que estejas bem.
espero que não te tenhas esquecido de mim.
eu tenho saudades tuas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

{pai}

hoje está a ser um dia mau.
já tinha deixado escrito para amanhã a dizer que hoje nunca me lembro de ti, mas hoje lembrei-me.
não acordei bem, não me sentia feliz e de repente vi a data e tudo se encaixou.
afinal hoje também me lembro de ti, afinal hoje também sinto saudades tuas.
e saudades de mim.
hoje só queria voltar para um lugar e para alguém onde fui feliz.
ou então passar à frente, ir diretamente para um futuro melhor.
hoje estou encravada aqui.
fazes-me falta, fazes-me tanta falta.
ainda.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

{R.I.P.}

se há coisa complicada nesta vida é a morte, esperem até terem de organizar um funeral e vão ver.
agora estou a ter um dejá vu porque vão abrir a sepultura do meu tio.
as instruções no postal parecem simples, ligar para o cemitério até 3 dias antes da data marcada ou a campa será dada como abandonada.
ainda bem que liguei 15 dias antes, fizeram-me um questionário intensivo e eu não sei uma única resposta, queria poupar a minha tia mas afinal -ainda- há decisões a tomar.
de repente a ideia de deixar o meu próprio funeral preparado não me parece assim tão disparatada.
será que posso ir pagando em suaves prestações?

quarta-feira, 17 de abril de 2013

{os amigos}

os amigos são uma espécie que se subdivide em géneros.
há os bons, do peito, para sempre, que estão lá e não se interessam pelas circunstâncias, só por ti.
depois há os que nem são tão amigos mas que te embaraçam em público com manifestações inesperadas e exacerbadas de amizade para inglês ver.
e depois há os que te excluem propositadamente das memórias, como se não estivesses estado presente naqueles momentos.
esses são os amigos que lamento.
quer dizer que os perdi, que não fui uma boa amiga, que em algum momento lhes falhei e os magoei.

terça-feira, 16 de abril de 2013

{boston}

o mundo volta a sentir o medo.

{dias assim}

tenho um dos telemóveis sem bateria há dois dias aqui na sala, porque o carregador está noutra divisão e ainda não calhou ir para aqueles lados.
hoje sonhei com um post que queria escrever aqui.
ou melhor, pensei, porque já foi de manhã e foi mais um pensamento entre sonos.
tinha a ver com a amizade e a amizade via blogs por causa dum post que li e porque vi a entrevista da inês castel-branco no programa do outro que pergunta sempre o que dizem os teus olhos e ela dizia uma coisa que eu às vezes digo, que é o já não ter tempo para poder ter mais amigos.
ainda ontem falava das vicissitudes de ter um gato, hoje, mal saí da cama, calcei um chinelo vomitado.
acho que eduquei a gata bem demais, tenho de pensar como lhe vou explicar que afinal é preferível sujar o tapete ao chinelo.
respondi massivamente a anúncios de emprego e fiquei deprimida por encontrar ofertas com o salário abaixo do salário mínimo nacional.
comi uma laranja e sujei-me.
decidi lavar duas t-shirts à mão, isto é, pô-las de molho num alguidar, mas consegui apontar o chuveiro para mim e ficar toda molhada -só tenho um alguidar e é grande, só cabe na banheira-.
dói-me um bocadinho a cabeça porque os senhores que cuidam das áreas envolventes -ou lá como é correto chamar aos espaços ajardinados em volta do prédio- andaram mais de duas horas de volta do prédio com as máquinas de cortar relva.
o de volta do prédio é literal, primeiro ouço-os na sala e no quarto e depois no escritório e na cozinha.
tenho as janelas fechada mas cheira a relva acabada de cortar.
já disse que me dói a cabeça?
certo.
vou à rua beber um café.

{o normal, o habitual e outros que tal}

vi uma reportagem em que uma jornalista deambulava por um centro comercial e perguntava aos transeuntes se tinham tabus no que respeita ao sexo.
para meu espanto a resposta de todos era não.
mas quando a jornalista lhes perguntava se usavam vibradores ou se praticavam sexo anal e sexo oral, a resposta mudava para um isso não, só o normal.
portanto, ninguém tem tabus no que respeita ao sexo, só no que respeita à normalidade.
suponho que o normal é como quando se entra no café e se ouve o empregado perguntar se é o habitual.
o habitual é bom, é confortável, cumpre os requisitos mínimos e não desilude.
ninguém gosta de começar o dia com um mau pequeno almoço, o pão demasiado seco ou demasiado queimado.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

{isto está mau}

ando que parece que tenho uma bicha solitária.
uma?
uma manada.
e também já não são solitárias, têm por companhia toda a comida que já ingeri hoje e não foi pouca.
o problema é que me apetece comer mais.
não posso, penso eu enquanto levo mais uma colher de granola à boca.

{é tudo ou nada}

chegou o momento de experimentar novas fórmulas, de deixar de parte receitas antigas.
já fiz o que devia.
é chegado o momento de fazer as coisas à minha maneira.
não tenho muito a perder, tenho tudo a ganhar.
vou seguir o meu instinto.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

{tpm}

eu sou uma cabra quando estou com tpm.
ok, quando não estou também, mas quando estou sou pior.
e o meu gajo sofre de síndrome da gata borralheira.
ai se não fosse o amor íamos ter um serão tão divertido...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

{dia dos irmãos - parte II}

tive um irmão.
ou não chegamos a ser irmãos porque morreu antes de eu nascer.
foi por causa do meu irmão que nasci em casa.
ele nasceu numa maternidade e não era perfeito.
a minha mãe acha que lhe trocaram o filho na maternidade, mas eu acho que não, nas fotografias o bébé é parecido com o avô estevão.
é engraçado eu achar isso, porque nunca acho que os bébés se pareçam com ninguém.
seja como for, o meu irmão, que tinha o nome do meu pai e o nome do meu tio que me criou, não tinha a boca completamente formada.
contaram-me que não tinha a língua nem o céu da boca completos.
a minha mãe diz que quando pegou no filho viu que ele era perfeito, mas as mães contam os dedos dos pés e os dedos das mãos e não sei de nenhuma mãe que tenha aberto a boca ao filho para lhe ver o interior.
o meu irmão morreu oito ou nove meses depois de ter nascido, não se conseguia alimentar.
por causa do meu irmão eu fui uma espécie de bébé milagre.
diziam que a minha mãe só podia ter filhos deficientes, até ela ir ao doutor gastão, o bruxo da venda nova, que lhe garantiu que não era assim.
quando eu nasci a minha mãe já tinha feito abortos e tinha engordado mais de 20 quilos,  não fossem os desejos de grávida não satisfeitos fazerem com que eu nascesse com um terceiro olho na testa.
eu nasci em casa, com mais de 5 quilos, não admira que ela não gostasse de mim.
e eu ressenti-me, recusei-lhe o leite como ela me recusou o amor.
eu fui desejada por todos menos provavelmente por ela.
para ela eu fui o cumprir duma obrigação, o dar uma alegria a todos para que a deixassem em paz.
ela teve-me porque o meu pai queria ter filhos e porque a irmã não os podia ter.
e demitiu-se de funções no minuto a seguir.
deixou-os criarem-me, a parte dela estava feita.
o meu irmão era um bébé comprido.
suponho que esgotou o stock de genes bons e me deixou por destino ser baixa e gorda.


{dia dos irmãos - parte I}

parece que hoje é dia dos irmãos.
não tenho irmãos mas imagino que não seja assim tão diferente de ter primos.
eu adorava os meus primos, mas como era a mais nova sofria um bocado.
depois cresci e mesmo assim tinha de aturar os filhos dos primos.
quando era pequena e me perguntavam se queria ter irmãos respondia sempre que não, não sei se pelo que aturava aos meus primos ou se simplesmente por gostar muito do meu próprio mundo.
quando era míuda o que eu mais gostava era de brincar sozinha e o que mais ambicionava era que os meus pais me deixassem ficar sozinha em casa.
cresci num prédio habitado pela família, os fins de semana significavam que além dos primos ía haver os primos dos primos de visita.
nunca senti a falta de um irmão.
acho mesmo que ía ser muito esquisito conviver com outro ser gerado pelos meus pais.
será que ía ser parecido comigo?
e se ele (ou ela) viesse a gostar da minha mãe?
e se o meu pai gostasse mais dele que de mim?
mano, ainda bem que não nasceste.

terça-feira, 9 de abril de 2013

{um dia normal}

cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e para a maioria, é só um dia mais.

josé saramago

{parabéns míuda}

como em todos os anos anteriores, pensei que este ía ser o dia de anos perfeito, aquele em que eu estaria mais magra que nunca, o cabelo comprido, a pele lisa, os dentes brilhantes de brancos.
mas olha, ainda não foi desta.
o cabelo estava giro, mas eu continuo gorda, a pele resolveu ser alérgica e intolerante a partir dos quarenta e isto é coisa que já não desanda, as sobrancelhas metem medo porque tenho de as deixar crescer -outra vez- para ficarem certas.
de resto, passou-se.
passeei sozinha, comi um gelado no santini, fui visitar as princesas, jantei com ele.
atendi todos os telefonemas e fingi estar eufórica.
era segunda feira e ninguém estava particularmente feliz.
também não me senti infeliz.
foi mais um dia normal.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

{em abril, poemas mil}

O que há em mim é sobretudo cansaço 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas 
Essas e o que falta nelas eternamente 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço... 

Cansaço - Álvaro de Campos in "Poemas" 



{*}

domingo, 7 de abril de 2013

{mau feeling}

eu sabia que tanta barulheira durante a mudança não era um bom augúrio.
desde o dia da mudança que há música e conversas madrugada fora na rua, à porta de casa.
hoje há festa.
ou secalhar para a vizinha nova é um domingo normal.
para mim é que não, ainda estou a curar a enxaqueca de ontem.
detesto viver num prédio.

sábado, 6 de abril de 2013

{o primo de algés}

o orfão criado pela tia teresa cresceu um belo mancebo.
era o típico beto da linha, bonito e educado.
a mim intimidava-me tanta beleza.
quando ele ía lá a casa eu escondia-me debaixo da mesa de pé de galo.
tinha vergonha.
não sei porquê, não me lembro sequer de ele me dirigir a palavra, nunca lhe dei oportunidade, fugia.
a mesa de pé de galo estava num canto da sala, de frente para o sofá, coberta com uma toalha curta de renda e cheia de molduras.
eu escondia-me debaixo de uma mesa onde todos me viam.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

{cem anos de solidão}

o meu avô tinha um nome em cada lado da fronteira, estevão do lado de cá e esteban do lado de lá.
o meu avô estevão teve um irmão josé e três irmãs: a corica, a sílvia e a teresa.
a corica casou com o mata sete, desconheço o nome verdadeiro, sei que numa rixa na raia alentejana por causa de contrabando despachou sete, não sei se os matou mesmo ou se era só lenda.
o estevão e o josé deixaram de se falar ainda novos por causa da sílvia.
a sílvia era muito bonita e veio do alentejo para lisboa e diz que caíu na vida.
quando voltou à terra, a sílvia ía grávida e sem pai para o filho e o irmão josé, que de todos era o que estava melhor na vida, era manageiro, renegou-a e culpou a irmã teresa.
o meu avô achou mal negar cama e mesa à irmã grávida, independentemente do tamanho da sua desgraça.
lutaram e nunca mais se falaram.
a sílvia acabou por morrer de sífilis logo após o nascimento do filho, que veio a ser criado no bairro de algés pela irmã teresa, como se seu fosse.
a tia teresa era uma senhora muito bonita e distinta.
adorava perder-me na casa dela, entre plumas e purpurinas, luvas compridas e estolas de raposa.
viveu um amor proíbido com um homem casado, foi teúda e manteúda.
mas ele levava-a à opera e aos melhores restaurantes de lisboa e nunca lhe falhou.
até se dar o 25 de abril, altura em que, dizia-se, ele fugiu com a família para o brasil.
ela recebeu uma carta de amor com um carimbo do brasil, onde ele dizia que a amava mas que não mais se poderiam ver.
e nunca mais se viram.
durante muitos e muitos anos todos os meses a conta bancária da tia teresa recebia um generoso depósito, até que um dia acabou.
foi com a tia teresa que aprendi que uma chávena de chá nunca se recusa, mas que é indelicado beber mais de duas.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

{a julieta}

quem morreu foi a julieta, a prima da minha mãe.
morreu velhinha, sem memória.
um dia em que fui visitar a minha mãe e a minha tia, estava a julieta sentada nas escadas à entrada do prédio, saia à meia banda e só um brinco nas orelhas.
disse que se tinha sentado ali para não estar sozinha em casa, assim, se lhe desse alguma coisa sempre a viam da rua.
perguntei-lhe porque desceu dois lances de escada em vez de subir um, porque não foi lá para casa.
respondeu-me que não se tinha lembrado e se eu agora estava lá a viver com a minha irmã.
foi estranho ir vendo a julieta ficar igual à mãe, mas ainda é mais estranho confundirem-me com a minha.
sempre que me perguntavam no emprego se tinha micas, respondia que o micas é o marido da julieta -diminuitivo de amilcar- agora perdeu a piada.
na minha família há nomes estranhos, sempre gostava de saber que raio passou pela cabeça da tia corica ao batizar as filhas.
os rapazes safaram-se, todos corridos com a letra j, mas além da julieta teve a eunice, a rosete e a brancolina.
se corica já não é um nome normal, brancolina não lembra a ninguém.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

{planos}

eu estava a planear dormir a sesta, mas a vizinha nova planeou fazer a mudança.
detesto morar num prédio.
aposto que ela planeava ter mobília, mas pelos sons que ouço vai ter móveis feitos em mais pedaços dos que os do ikea antes de se montarem.
mais uma vez, a minha janela sabe tudo.
pelo som a vizinha nova é preta -africana para ser politicamente correta- e o homem das mudanças diz asneiras.

{premonição}

outro dia li num blog alguém dizer sobre o seu dia de aniversário que sentia ter chegado à metade da sua vida, que era algo que sentia desde pequena, isto de ir morrer cedo.
eu também acho que estou em metade da minha vida, o que é uma merda, porque eu quero viver mais.
não sei para quê, as perspetivas de futuro não são animadoras, este país não é para velhos, mas quero viver muito.
os meus avós maternos morreram tarde na vida, velhinhos e eu quero morrer velhinha.
antigamente tinha medo de morrer, agora não.
não é que me apeteça morrer, nada disso, mas já não me falta o ar no peito quando penso que também eu um dia vou desaparecer.
é uma merda, só pode querer dizer que já estou a ficar velha, só os velhos é que não têm medo da morte.
alguns, porque outros têm.

{urubus e outras aves necrófagas}

há dias em que penso que é parvoíce manter este blog, um quase diário a céu aberto.
no meu céu de vez em quando pairam urubus e outras aves necrófagas, que não me assustam, são antes um desafio.
sempre achei de mim que sou o tipo de pessoa que se ama ou se odeia e nunca me esforcei para cativar.
no entanto, fico admirada por me odiarem.
o ódio dá trabalho, requer empenho.
pessoalmente acho que pessoas de quem não gosto não merecem o meu tempo, esforço ou pensamentos.
sou mais dada ao desprezo.
e eu sou inofensiva.
determinada, persistente, mas inofensiva.
os urubus e outras aves necrófagas gostam de vir aqui -é mais ali ao lado- ver se já morri.
lamento desiludir tão devota audiência, mas creio que estou para durar.
sou inofensiva, mas sou ruim.
não quebro.
e, como as árvores, tenciono morrer de pé.
daqui a muitos, muitos anos.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

{à janela}

de todas as janelas da praceta há um gato com cio que escolheu uivar debaixo da minha.
e o coitado parece ter cio todas as madrugadas ou então não tem cio e uiva todas as noites por outra razão qualquer.
às vezes olho para a gata à procura duma reação, mas ela limita-se a olhar-me ensonada.
tenho pena do gato.
a minha janela é um mundo ou tem qualquer coisa especial que atrai pessoas e animais.
a senhora que lava a escada e a cusca do prédio falam da vizinhança debaixo da minha janela.
os empregados do escritório de contabilidade fazem uma pausa para o cigarro e falam da vida, debaixo da minha janela.
a adolescente briga com o namorado antes de entrar no prédio, debaixo da minha janela.
a minha janela sabe a vida de toda a gente.

{i'm dreaming of white}

apetecia-me esvaziar a casa.
livrar-me dos móveis todos, das estantes, da cama.
arrancar o papel de parede e os candeeiros da entrada, livrar-me dos dourados.
apetecia-me pintar tudo de branco, comprar um sofá gigante e passar a dormir na sala, só com a lareira.
e o resto da casa vazia, as janelas sem cortinas.