domingo, 27 de outubro de 2013

{senhor chofer por favor tire o pé do acelarador}

o tempo passa depressa demais, este foi o verão mais curto da minha vida e agora isto.
quatro.
nasceu ontem e já vai fazer quatro anos.
ele quer ter mais, quer ser crescido, quer ter dez.
não, não queiras, não cresças, peço-lhe eu.
fica para sempre pequenino, com cheiro a bébé, para sempre um bocadinho meu.
porque a vida nunca mais terá o mesmo encanto de agora, tu pequenino e eu ainda nova.
daqui a muito pouco tempo olharás para mim doutra maneira, não me darás tantos beijos, fugirás do meu colo e eu serei apenas mais uma cota.
não cresças, por favor, não cresças.
mas ele tem pressa de crescer.
não tivemos todos um dia?

sábado, 26 de outubro de 2013

{the end is near}

só pode ser o mundo a acabar, vou agora mesmo para um workshop de iniciação ao tricot.
tomem medidas, façam reservas de alimentos, pilhas, lanternas, sacos cama.
protejam os vossos.
boa sorte.

domingo, 20 de outubro de 2013

{euromilhões}

90% das vezes que telefono à minha mãe e à minha tia, não atendem.
a maioria das vezes porque não ouvem o telefone, outras vezes porque se esqueceram de o por a carregar e ainda outras vezes porque carregaram num botão por engano ou lhe tiraram o som.
hoje é domingo e atenderam, deve ser porque é dia do senhor, aleluia.
mas tive a conversa mais curta de todo o sempre com a minha mãe.
"olá mãe, estás boa?"
"hã?"
"mãe, sou eu, estás boa?"
"não te oiço"
"mãe, eu estou aos gritos, vê lá se tens o telefone bem ligado"
"estou na mesma"
"então já me ouves?"
"hã?"
"pronto mãe, eu ligo depois, beijinhos"
"hã?"
"beijinhos"
"hã?"
desliguei, é domingo e eu mereço descanso.
claro que já se passaram mais de dez minutos e a surda da minha mãe já podia ter dito à minha tia para me ligar, podia ser que ela me ouvisse ou, na loucura, que ligassem um dos muitos telemóveis que têm, todos guardados nas caixinhas, como novos, porque todos têm defeito.
mas não, lá em casa todos os telemóveis têm defeito, o telefone nem sempre funciona, elas não me ligam nenhuma e eu sou a ingrata que não quer saber delas, apesar de já ter gasto o equivalente a um salário mínimo nacional em telemóveis e chamadas para o café, para saber se estão vivas, porque não atendem o telefone.
as hipóteses de conseguir falar com elas e as hipóteses vir a ganhar o euromilhões devem andar taco a taco, sendo que para elas ligo muito e no euromilhões raramente jogo.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

{just like starting over}

profissão: começadeira.
o que eu adoro começar!
e sou boa a começar!
começo tudo, cada começo melhor que o anterior.
ai que bom que é começar, a adrenalina, as ideias a fervilhar, a pulsação acelerada, as madrugadas de novos começos, o 'cheirinho' a novo!
desta é que é, é mesmo isto!
adoro começar, criar o conceito, o design.
e sou boa a entusiasmar os outros com os meus começos.
por isso, se houver por aí alguma empresa que precise de começar um projeto, I'm your (wo)man!
sou muito criativa, comunicativa e entusiasta.
e boa em começos, já disse?
o depois fica por vossa conta, que eu aborreço-me depressa.


*título roubado desta canção

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

{companheiras}

a gata está doente.
outra vez.
chega esta altura do ano e a gata fica doente, como que para me relembrar da pior semana da minha vida, há quatro anos atrás.
a gata está doente e o meu coração enche-se de tristeza e de pena, não suporto vê-la sofrer.
a minha gata é velha e toda a velhice devia terminar com amor e dignidade, sem dor.
dou-lhe colo e encho-a de beijos, à minha companheira de há 16 anos.
gosto tanto de ti gata.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

{são nossas coisas, são coisas nossas}*

é uma coisa muito nossa, minha, isto de perguntar "gostas de mim".
ele responde invariavelmente "claro que sim, isso não se pergunta, isso é uma circunferência fechada".
e eu acho-lhe graça, que eu posso ser a raínha do pendant, mas ele é o rei das frases engraçadas.
rio e digo-lhe muitas vezes que se não fosse uma circunferência fechada, não seria uma circunferência, mas outra forma geométrica qualquer.
mas gosto que ele me responda sempre isto e ele gosta que eu lho pergunte.


* título inspirado nesta canção

{atualmente quase ex}

estou eu há coisa de 10 minutos a falar ininterruptamente ao telefone, de trivialidades, de como foi o meu dia, do tempo, da crise, de tudo e de nada e no fim atiro-lhe com um "e tu? gostas de mim?".
e ele nada, do lado de lá só a televisão como ruído de fundo.
mas tu estás-me a ouvir, pergunto.
diz que sim, que foi um corte na ligação, mas que foi só agora, de repente.
então o que é que eu estava a dizer, insisto.
sei lá, responde ele.
e é nestes momentos que preciso de muita  calma  para não fazer uma fita nem lhe desligar o telefone na cara.
neste campo ele tem muito a aprender com o meu ex-marido, que também não me ouvia mas que tinha desenvolvido a extraordinária capacidade de ir buscar num recanto qualquer do cérebro as últimas palavras que eu tinha dito.
uma vez terminei uma conversa, presencial mas igualmente trivial, com a famosa frase "e o coelhinho foi com o pai natal no comboio ao circo" (hum, talvez a frase só seja famosa para a minha geração e arredores).
e ele a acenar afirmativamente com a cabeça, mas de olhar vítreo colado à televisão.
e eu fiz-lhe o teste.
tu ouviste o que acabei de dizer, perguntei.
sim, ouvi claro que ouvi, respondeu ele (claro).
então repete lá.
e ele repetiu, o coelhinho foi com o pai natal no comboio ao circo, com a maior candura.
ao contrário de agora, que acho este episódio divertido, devo-lhe ter feito uma cena e ficado extramente magoada, deve ter sido este o momento em que percebi que os homens não ouvem sempre (quase nunca) as mulheres.
tantos anos depois já estou resignada, mas não curada.
já não fico magoada, mas sou acometida de fúria.
e o que me deixa furiosa não é que ele não me ouça, que nem eu sei do que estava para ali a falar por falar.
o que me deixa furiosa é o não reconhecimento do meu esforço por manter uma linha de comunicação, de normalidade, de interesse.
são nove e meia da noite e, apesar de para mim não ser o fim dum cansativo dia de trabalho, também a mim me apetece estar alienada no meu canto, sem pensar e a fazer as coisas de que gosto, como escrever no blog, ou a não fazer nada.
mas ainda assim fiz um esforço, peguei no telefone para saber dele e lhe falar de trivialidades.
seja como for hoje vou dar-lhe o tratamento silencioso, não lhe ligo mais, e não sei se amanhã de manhã lhe respondo ao habitual sms de "bom dia amor".
não por ainda estar furiosa, mas porque assim ele acha que fiquei amuada e me vai mimar e querer fazer as pazes.
sim, aprendi muito sobre as relações desde o meu (ex)casamento.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

{aíííí o azar}

a culpa só pode ter sido da puta da cigana, que eu estava com uma fezada que era desta que tinha ganho o euromilhões.
eu, que não sou dada ao jogo, joguei.
e mais: fiz um desvio para ir à papelaria que a andreia disse que me ía dar sorte.
o tanas!
claro que a culpa só pode ter sido da cigana, que a caminho do café dos bêbados* quase me arrancava um braço e eu a tentar fugir-lhe.
"aíííí esta cara linda é que me vai comprar uns óculos da moda! aíííí que são raibãeíííí verdadeiros!"
estou demodê e falida.
isto só pode ser mau olhado.


* o café dos bêbados é o local mais próximo da minha casa onde se pode apostar nos jogos da santa casa.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

{pumbas}

caí.
assim, desamparada, para trás.
estava à espera duma amiga num recanto dum jardim, escorregou-me o salto alto na relva e eu caí.
ziguezagueei e aterrei na relva, num declive, o rabo na relva inclinada para trás e as pernas abertas para o ar.
ou melhor, não sei muito bem como foi, à parte ter sentido o salto escorregar e o rabo aterrar.
isto das quedas é uma coisa que se passa au ralenti e ao mesmo tempo tão depressa.
nem sei se alguém viu, eu não vi ninguém, mas claro que não tirei os óculos escuros da cara.
podem-me ter visto as cuecas, mas a cara não.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

{recomeçar}

hoje faz anos que o dia de hoje foi uma data especial.
já não é.
ou talvez ainda seja, para eu estar aqui a pensar nela.
não consigo arrepender-me das escolhas que fiz na vida.
mesmo das más.
as escolhas são como cruzamentos que nos levam sempre a novos caminhos.
acertadas ou erradas, as escolhas que fiz trouxeram-me até hoje e à pessoa que sou e o que sei agora não o poderia saber desta forma se a escolha tivesse sido outra.
no entanto, à luz deste dia, faria tudo diferente.
não tenho arrependimentos, mas tenho lamentos.
da mesma forma tenho recordações, como tive lágrimas e risos.
sou tão diferente da pessoa que fui e ainda tão igual!
desde que me lembro de mim que sou assim cá dentro.
quando terá sido que comecei a ter as minhas convicções?
seja lá quando seja, preciso de recomeçar.
tenho andado insatisfeita com a minha vida e já diz a canção mudar de vida se tu não vives satisfeito, mudar de vida estás sempre a tempo de mudar...
easier said than done.

domingo, 6 de outubro de 2013

{pés de galinha e outras considerações}

eu bem as vejo nas fotografias, ao canto do olho, as primeiras rugas.
a testa ainda é lisa, mas a linha do maxilar perdeu a definição.
que porra, é mesmo verdade, uma mulher chega aos 40 e tudo descai, até o amor próprio.
mas o que admiro nas míudas de 20 que encontro por aí, o que lhes invejo, não é o viço do corpo, é a lisura da pele.
gostava de ter pele de inglesa, ou mesmo de nórdica, alva, lisa, uma cútis perfeita.
em vez disso sou trigueira, a minha pele escurece só com o ar do alentejo.
um corpo é um corpo e traz em si a nossa história de vida.
não me incomodam as mamas descaídas, a barriga flácida, a celulite no rabo nem as estrias.
os homems admiram o corpo das mulheres mais novas, desejam-no.
mas os homens amam o corpo da mulher que amam.
e os corpos não precisam de ser perfeitos para darem e receberem prazer.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

{blogoflop}

acabo de perceber que nunca vou atingir o estrelato à escala blogosférica.
não tenho filhos nem gosto de cozinhar.
o que eu gosto mesmo é de ir jantar fora, mas não necessariamente ao olivier.
também sou uma péssima fotógrafa e não sou particularmente sociável.
tenho um elevado sentido estético (gaba-te cesto), mas não sigo blogs de moda.
escrevo razoavelmente bem.
sou detentora duma grande dose de criatividade, contudo completamente anárquica.
provavelmente preciso de coaching.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

{c'est la vie}

eu sei que tem chovido muito e que os dias estão cinzentos e que o nevoeiro nos deixa tãtãs da cabeça.
mas eu não tenho culpa.
nem disso, nem da crise, nem da merda de vida que todos levamos.
também não tenho culpa de ser gira e sexy e de ter uma voz doce.
tenho culpa, no entanto, de estar indecentemente bronzeada numa altura em que todos ao meu redor já começam a ter um ar deslavado.
ah e tal e como é que a senhora da optimus que te maltratou atendeu telefonicamente sabe que estás bronzeada se não te viu, tens a mania tu.
não sei como ela soube, só pode ter pressentido, a puta ressabiada, que foi a criatura mais antipática com quem falei nos últimos 20 anos, parece que até do meu nome estava a dúvidar.
o meu nome também é bonito.
tudo em mim é bonito e brilha num dia como hoje.
todos temos dias assim, não é?
maus para uns, bons para outros.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

{na mouche}

quais as probabilidades de o meu ex-marido e a ex-mulher dele fazerem anos no mesmo dia?
todas.

{será da chuva?}

regressei de férias para uma casa de sanita entupida.
que, tal como aparentemente se auto entupiu durante a minha ausência, se auto desentupiu.
em compensação, as configurações do computador estão às avessas e ainda não consegui resolver tudo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

{black is the new black}

recentemente veio parar aqui ao prédio uma senhora preta, vinda de angola com o seu filho teenager.
aparentemente são só os dois.
e a polícia.
é frequente aparecer cá a polícia a perguntar à mãe pelo filho e ela diz sempre que não sabe dele.
sucede que o desaparecido faz aparições regulares por esta hora e ouve músicas de preto, à preto.
e eu sou um pessoa fraca de cabeça, qualquer barulhinho irritante me causa enxaqueca.
e estas músicas são um barulhão para lá de irritante.
vou sair de casa ou ainda me dá para chamar a polícia.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

{lucas 13:30}*

cada  vez tenho menos paciência para as últimas bolachas do pacote e para as últimas coca-colas do deserto.
porque a verdade é que não se acham os últimos de nada, mas antes os primeiros.
acham-se os primeiros na esperteza (saloia) e na sorte.
o que eles (ainda?) não sabem é que há sempre alguém mais esperto, mais rápido, mais atento, melhor.
e que a sorte não dura para sempre.
aliás, o ditado diz que a sorte protege os audazes, não os estúpidos.

*

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

{quando foi a última vez que foste a um restaurante pela primeira vez?}

aparentemente, uma das coisas que a idade nos leva é o gosto pelo risco.
e experimentar novos restaurantes pode ser arriscadíssimo.
pelo menos fora de lisboa.
e se o linguado não for de mar?
e se o bife for rijo?
e o serviço demorado?
e o preço inflacionado?
portanto, se não forem os amigos a arrastar-nos, lá vamos nós jantar aos sítios do costume, rever as pessoas do costume, comer os pratos do costume, pelos quais suspiramos o resto do ano.
não estou certa se isto é velhice ou conforto.
mas é bom.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

domingo, 22 de setembro de 2013

{la cage dorée}

regressados sãos e salvos do continente africano, este é o segundo dia que passamos no algarve.
eu fui picada por uma abelha na praia (desde quando é que há abelhas na praia?) e ele está agarrado à nova telenovela da sic, sol de inverno.
há abelhas na praia dos salgados e as garças da lagoa andam a banhos no mar e as gaivotas da praia andam a banhos na lagoa.
fui picada por uma abelha enquanto punha protetor solar nele e prontamente socorrida pelo nadador salvador.
caso não saibam (eu não sabia) a picada de abelha dói como o caraças e tive direito a spray e massagem.
estive para exagerar e dizer que não conseguia andar, que tinha de ser transportada em braços mas, provavelmente, para manter a virilidade e o orgulho intactos o meu homem é que ía alapar comigo e, além de vir a falhar o objetivo de ser elevada por uns braços morenos e musculados, ía terminar o dia a besuntar o meu homem com pomada para a hérnia.
ele está ali a fingir que ouve a conversa do amigo, de pescoço esticado para a televisão.
também está preocupado em saber quando terminará o dancing days porque amanhã à noite vamos sair...

sábado, 21 de setembro de 2013

{respect II}


{respect I}

estou uma valente, tomei banho em alto mar com peixes por perto.
eles colaboraram, mantiveram uma distância respeitável, apesar de ocasionalmente saltarem nas ondas, o que era desnecessário, mas compreendo que estivessem contentes.
a água do mar está quente, de marrocos ao algarve está nuns simpáticos 21-23ºC.
sou muito ciosa do meu banho, não gosto de o partilhar com bicharada em geral e com peixes em particular.
uma pessoa é uma pessoa e um peixe... cheira a peixe.
e não me venham falar em golfinhos, que podem ser muito inteligentes e bonitos e fofinhos (francamente, algum peixe merece o adjetivo fofinho??), mas que, ainda assim, são peixes.
e eu até vou ao zoomarine, quer dizer, vou jantar ao ribeirinho*, que é lá em frente e que tem o melhor frango da guia (chicken piri-piri).
ou talvez o melhor frango da guia seja o do teodósio*, não estou certa, mas se forem a este último não deixem de comer um dom rodrigo, que são deliciosos e feitos por uma confeiteira de s. brás de alportel, de seu nome mónica guerra e que também são servidos no retiro do isca*, outro bom restaurante.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

{mourning}

once upon a time I was a morning person.
not anymore.

{morning}

eu acordo sem poder sentir o cheiro de pessoas, quanto mais vê-las ou conversar.
ele acorda sempre cedo, vai correr e volta tagarela.
a mim até sorrir ou acenar com a cabeça me custa, falar está fora de questão.
mas ele não aprende e insiste, faz perguntas.
perguntas!
claro que não respondo, fujo para a casa de banho.
saio de óculos escuros, em silêncio, como de óculos escuros, em silêncio, tento criar uma barreira mental à minha volta: não vos estou a ver, não vos estou a ouvir, vocês não existem, só o universo e eu...
esta coisa da simpatia dá cabo de mim.
agora que já acordei vou ver se durmo mais umas duas horas à sombra.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

{os nossos 15 minutos de fama}

não sei bem porquê acham sempre que sou inglesa ou francesa.
já uma vez acharam que eu era alemã e não gostei nada, foi uma espécie de despromoção, senti-me imediatamente uma frau merkel, gorda e desajeitada.
agora estão ali as espanholas de olho em mim por causa da túnica cortefiel.
ontem era uma loura que se derretia em sorrisos na minha direção, já me estava a sentir assediada, depois lá me lembrei que tinha uma t-shirt do hard-rock café de amesterdão.
a ele reconhecem-no. 
vá-se lá saber de onde, mas é um gosto ver estrangeiros a acenar-lhe e perguntar "how are you my friend?".
somos cidadãos do mundo, é o que é.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

{la bella vita}

gostava de ser mais vaidosa.
agora estou aqui na piscina a olhar com inveja para a manicure das outras mulheres.
unhas dos pés e das mãos impecáveis.
e eu só tenho as unhas dos pés pintadas, nem me dei ao trabalho de pintar as das mãos, porque estava com preguiça e porque não valia a pena.
não sei porquê, mas não consigo ter as unhas das mãos pintadas nas férias, duram um dia e começam a descascar.
vá-se lá perceber, entre praia e piscina o meu maior esforço é levantar-me para ir buscar um cocktail, e as unhas descascam.
também gostava de ter pachorra de me maquilhar só para ir jantar a cem metros do quarto, mas não tenho, trago um rímel e um gloss e já acho uma maçada ter de me desmaquilhar antes de dormir.
ai como é boa a vida de pulseirinha no pulso!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

{a avó céu}

hoje era o dia de anos da avó céu.
a minha avó que contava contos, apesar de se queixar que eu era a neta que menos lhe pedia que contasse um conto.
mas lembro-me de todos, avó.
e hoje, tal como tu, também eu conto contos.
a um neto que não é meu, que é só emprestado, mas que me espera ansiosamente todos os fins de semana com os livros de histórias já separados para eu lhos ler.
e eu faço batota, não lhe leio as histórias como elas são estão escritas nos livros, invento histórias sobre a história e conto-lhe os teus contos.
um dia, quando ele souber ler, talvez pegue nos livros antigos e sorria ao perceber como eu lhe contava contos só nossos e talvez me pergunte onde fui eu buscar as histórias que lhe contei.
nesse dia vou-lhe contar a história da menina que tinha uma avó que contava contos.
era uma vez, há muito, muito tempo...

{talvez por ser sexta-feira treze}

estou num dia mau.
pela primeira vez na vida cheguei a pensar que afinal não sou feliz.
que está tudo mal, tudo errado e não me sinto feliz.
vou de férias e não me apetece.
é tramado fazer a mala num dia em que acho que nada me fica bem.
tomei um comprimido para a dor de cabeça, amanhã já deve estar tudo bem.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

{9/11}


{11/09/01}

lembro-me bem deste dia, porque foi um dos dias mais tristes da minha vida.
tal como agora, estava desempregada.
foi a última vez que entrei numa igreja para rezar.
lembro-me de entrar na farmácia e de achar estranha a conversa sobre bombas e o sadam.
só à noite soube dos ataques terroristas.
e lembro-me sempre disso, mas lembro-me mais da minha tristeza.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

{horário}

não gosto de mentir, de ter de inventar desculpas, de nunca 'ouvir' o telemóvel.
mas se dissesse à senhora da ótica, que me ligou às 14h e depois às 18h para dizer que tinham chegado as lentes, que estava a dormir, mas que se me tivesse ligado entre as 22h e as 13h me tinha apanhado acordada, era esquisito.
já não é fácil explicar aos amigos que funciono assim, que é o meu biorritmo, que estou bem, sem que me falem de comprimidos e de médicos especialistas, de deus e de esperança.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

{no escurinho do cinema} *

nos filmes as mulheres fazem amor de sutiã e nunca dão um açoite, só apanham.
é isto não é?


* título retirado da letra desta canção

{ai, ai os homens}

pobres criaturas, vê-se que que ficaram abalados com esta coisa da multa ao piropo.
hoje houve um que me silvou.
e não por eu ou ele termos silva no nome (eu pelo menos não tenho), mas porque emitiu um som tipo "fssssssss... fssssssss...".
por acaso estava junto a uma moita (podia ser a uma silva), talvez tenha sentido o chamamento da natureza e pense que é uma cobra.
tudo é possível.
afinal, sabe-se lá o que pensam os homens ou até mesmo se pensam, não é?

(agora só para os homens: o quê, não me digam que se sentiram ofendidos na vossa dignidade enquanto seres humanos por causa do meu comentário sexista da última linha! sim?! então agora já sabem o efeito que causa em nós os vossos piropos, gemidos, olhares e abusos de confiança em geral. é bom, não é? enjoy.)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

{piropada}

o que mais me choca nisto dos piropos, é constatar que há homens que encaram o piropo como uma missão e que estão convencidos de que no fundo nós mulheres gostamos.
pessoalmente, os meus preferidos são aqueles em que o pseudo macho emite sons, pequenos estalidos, ou chupa os dentes enquanto faz um meneio com a cabeça, idêntico aos dos cavalos, sem ofensa para estes últimos.
causa-me um particular arrepio quando chegam mesmo a verbalizar "sim senhora", dando todo um novo sentido à minha vida saber que o meu aspeto tem a sua aprovação.
(sou uma mariquinhas, comovo-me com qualquer coisa, eu sei)
ainda agora passou um homem por mim na rua e gemeu baixinho e lá fiquei eu outra vez toda em pele de galinha.
gostava de lhe ter podido oferecer uma aspirina, um ben-u-ron, um supositório ou até uma cápsula de arsénico, mas infelizmente não trazia nenhum desses itens comigo.
aquilo eram dores, coitado, vá lá que já estava perto do centro de saúde.
espero que lhe tirem a temperatura.
retal.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

{amuos}

de vez em quando ele amua.
muito pontualmente, é verdade, mas ainda assim amua.
ora eu, que sou do confronto e do mano a mano, tenho aprendido a ignorar os amuos dele.
o mais ridículo é que os amuos têm efeitos opostos em nós.
a ele dá-lhe para a pressa, a mim dá-me para o vagar.
os amuos dão-lhe para caminhar furiosamente.
a mim dão-me para apreciar a paisagem.
e não faço de propósito, mas parece que as minhas pernas prendem e a minha mente divaga.
e é giro, vê-lo andar tão rápido para depois ficar parado à minha espera.

{you got me and baby I got you}

o miguel, ai o miguel.
quando o conheci eu estava no princípio da adolescência e ele já não.
deambulava pela praia com uma fita de cabedal a prender o cabelo (nem acredito que tinhas cabelo comprido, já nos rimos tantas vezes por causa disto) e a guitarra na mão.
fazia sucesso entre as míudas mais velhas, mas dava-me atenção.
mostrava-me os poemas que escrevia, falavamos de filosofia e discutíamos o estado democrático.
ensinou-me os meus primeiros acordes na viola, dizia que eu era inteligente e que íamos ser amigos para sempre.
e somos.
ele era da margem sul e sem ser no verão só trocavamos cartas, que eu sou dum tempo em que as pessoas se escreviam.
reencontrámo-nos quando ele veio para a universidade e me ía buscar ao liceu, até eu ir para a universidade e ele começar a trabalhar num jornal.
anos mais tarde havia de ir trabalhar como foto jornalista para paris e trocaríamos centenas de e-mails.
o miguel tem centenas de fotos minhas, um verdadeiro documentário sobre a pessoa que fui sendo ao longo dos anos.
e eu tenho centenas de poemas dele, alguns gravados em cassetes, porque ele sempre soube consquistar-me com a voz.
entre paris e lisboa eu casei, ele teve uma filha e vivemos a vida que nos calhou.
tantos anos depois ele havia de me telefonar a meio da tarde a perguntar o que me apetecia jantar e no fim do dia de trabalho eu metia-me no comboio para a outra margem para ir jantar com ele.
e voltava tudo a ser igual, a poesia, a política, os filmes, o teatro.
tantos anos depois ele continua a ser muito popular e eu continuo a ter cíumes das outras.
foi num verão há muito tempo a primeira vez que ouvi  a canção, na voz dele.

domingo, 1 de setembro de 2013

{était en septembre}

parece que que agora setembro já não é verão.
mas era.
setembro era o mês da fonte da telha, o mês dos mergulhos e do comboio até à costa da caparica para ir às compras com a avó.
era o mês do por do sol lado a lado com as gaivotas, o mês das noites em que já se vestia uma camisola para ir puxar as redes na praia com os pescadores e voltavamos para casa com sacos de peixe ainda vivo.
setembro era o mês das festas em casa dos vizinhos, de beber às escondidas e do meu amigo miguel tocar guitarra e de eu ter cíumes das outras raparigas.
setembro era o colo do pai, as aventuras com as primas, gargalhadas e tarefas partilhadas em família.
setembro eram gelados, peras, figos e melancias.
setembro era o mês das excursões à fonte de argila e dos jogos de cartas.
setembro era o mês de ler romances de cordel, porque eram os únicos livros que se vendiam na vila e eu já tinha lido todos os outros que tinha levado na mala.
setembro era infinito e dourado como a minha pele tisnada.
e um dia conto-vos sobre aquele setembro em que um dos pescadores teve uma paixoneta por mim e me protegia de todos os peixes aranha, reais e imaginários, e de como a minha prima gozava com ele e de como eu o achava tão doce que o deixei roubar-me um beijo.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

{ms. magoo}

aferir a correção de que os nossos olhos precisam é uma das coisas mais difíceis do mundo.
"melhor assim ou assim" e eu sei lá, repita se faz favor, mais devagar, talvez assim mas não estou certa.
"melhor verde ou vermelho" e parece-me a mim que nem um nem outro, podemos experimentar com amarelo?
é terrível, fico com a sensação de que não vejo bem de maneira nenhuma e a pressão para me concentrar, porque umas lentes graduadas são uma coisa demasiado cara para se andar a tentar acertar.
"tem lentes" pergunta ele, não, claro que não, se não como fazia a consulta?
"tem maquilhagem" pergunta agora e respondo que não, "nem nas pestanas" já disse que não, as minhas pestanas são mesmo assim.
"mas não tem lentes" insiste e eu estou quase a perguntar-lhe se é surdo, esquecido ou parvo, mas respondo novamente que não.
"mas consegue ver", sim consigo, sou míope mas não sou cega.
lá mais adiante na consulta há-de perguntar insistentemente se uso os óculos e hei-de repetir que até uso mais os óculos do que as lentes de contacto.
vai dizendo várias vezes "curioso" e fico a saber que a miopia diminuiu e o astigamatismo aumentou e diz que desta vez ainda não, mas que da próxima já devo precisar de lentes progressivas.
lentes progressivas? eu?
que porra.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

{to busy}

sou uma pessoa muito ocupada.
acordei às 10:30h, tomei banho, fui a uma consulta de oftalmologia, voltei para casa, comi, vi as parangonas da net, fiz um telefonema, escrevi este post e agora vou dormir mais um bocadinho.


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

{maravilhosos 3 anos}

aparece na sala com os braços carregados de bonecada e deixa-a caír no lugar do avô no sofá.
e eu digo-lhe, em tom de repreensão, porque sei que o avô não gosta que ele desarrume muito a sala, "mas o que é isso tudo?".
e ele responde, muito sério, "isto são as coisas mais maravilhosas que eu tenho, que são os meus brinquedos".

domingo, 25 de agosto de 2013

{ortónimo}

questiono-me como será a minha vida sem um blog?
será que aguento?
será que sou feliz?
bem, falo do outro blog, que este ainda é um pequeno segredo.
aqui não venho por querer que saibam de mim, mas porque me apetece escrever sobre mim.
mas o que é a escrita sem retorno?
um diário?
escrever não é per si um ato de exibicionismo, ainda que eventualmente encapotado por um heterónimo?
aposto que dava dez a zero a fernando pessoa nesta coisa dos heterónimos.
sou sempre eu, mas tenho tantas facetas, tantos humores, tantos sentires, tantos alter-egos.

ortónimo 
(orto- + -ónimo

s. m.

1. Nome verdadeiro, real. = AUTÓNIMO

adj.

2. Que se refere a ou usa o nome real de alguém.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

{note to self}

parar de comer com o portátil ao colo.
as migalhas prendem as teclas e quando releio posts descubro erros.

{stop searching, start finding}

foi também mais ou menos por esta altura que me apaixonei pelo pedro paixão.
não foi apaixonei-me por pedro paixão, foi apaixonei-me pelo pedro paixão.
procurava avidamente saber tudo sobre ele, imaginava-o, lia citações, entrevistas, desejava-o.
foi assim.

(talvez por isso não me sentiria nem surpresa nem desiludida, muitos anos mais tarde, ao saber que ele é bipolar, que escreve na cama, tal como eu escrevia, e viria mesmo a sentir uma forte identificação para com o objeto de admiração)

carregava sempre comigo o livro "saudades de nova iorque", uma cidade que não conheço, e durante a viagem de comboio lisboa-sintra eu fugia para nova iorque, percorria ruas escuras, fumava cigarros e sentia ao meu redor o cheiro do metal quente dos carris.
sofria e expiava e elevava-me acima da minha dor.
havia uma frase repetida ao longo do livro que se tornou no meu mantra, que eu repetia mentalmente, que escrevia na beira das folhas dos cadernos e que queria muito perceber.
"stop searching, start finding".
e como eu precisava desesperadamente de começar a encontrar alguma coisa na minha vida, alguma coisa para além do que restava de mim, alguma coisa para além de sangue e orgãos e ossos e músculos e carne.
eu precisava tanto, tanto, tanto de uma alma!

lembro-me que tinha umas botas num tom camel quase mostarda com uma mochila da mesma cor, nunca tinha tido uma mochila, ainda que de senhora, e gostava da liberdade de movimentos que a mochila permitia.
num dia desses conturbados dias, ía eu apanhar o comboio, com as botas calçadas e a mochila às costas, calças e blazer azul escuro, camisa branca com um nó na cintura (era magra e de cara encovada pelo sofrimento que trazia em mim), mãos nos bolsos, quando reparei num homem que não tirava os ohos de mim.
o homem olhou durante muito tempo e aquilo fez-me bem, de alguma forma senti-me menos só e invisível, mas quando me sentei percebi que trazia a braguilha aberta.
ri para dentro, de mim mesma,  peguei no livro e lá estava outra vez aquela frase "stop searching, start finding" e pensei que se ainda conservava o humor e o sentido do ridículo, talvez afinal eu estivesse no bom caminho, num caminho qualquer para outra coisa melhor e mais feliz.
nesse dia o comboio fez lisboa-sintra e eu não fui até nova iorque, fiquei por ali, a reparar nas coisas e nas pessoas.

http://www.pedropaixao.net


{no pressure over cappuccino}

ía jurar que já aqui tinha escrito sobre a importância da alanis morissette na minha vida, mas parece que não.
eu e a alanis tivemos uma relação de profunda intimidade na pior fase da minha vida.
quando eu estava só no mundo, foi a alanis que me amparou.
foi ela que me deu colo e coragem.
quando eu já não aguentava mais ser tão forte, foi a ela que revelei a minha fraqueza.
eu tinha iniciado a minha travessia no deserto fazia tempo e estava no ponto sobre o qual se diz "quando estiveres a atravessar o inferno não pares, continua" e ela apareceu-me como um oásis.
o álbum chamava-se unplugged, que era como eu estava, desligada das máquinas, desligada da vida, desligada de mim.
sei de cor cada palavra de cada canção, o tempo dos instrumentos, a rouquidão da voz.
levava os dias, do que me lembro da imensidão desses dias vazios, a pensar no que ela dizia e mal podia esperar para chegar a casa e me sentar a sós com ela no chão da sala.
passamos muitas noites assim, a escutarmo-nos uma à outra, entre almofadas e chá quente num chão frio, quase sem dormir.
por fim tudo aconteceu como ela me disse, that i would be good...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

{don't you think?}


{isn't it ironic?}

durante as minhas férias no algarve, recebi um e-mail duma jornalista que queria falar comigo pois estava a fazer uma reportagem sobre pessoas que não gostam do verão e alguém lhe tinha enviado o link deste post.

{ainda numa outra realidade paralela}

a minha mãe comprou uma vibroplate.
para que quer uma mulher de 70 anos que nunca se preocupou com a aparência uma máquina que serve para enrijecer as carnes?
podia ser para me oferecer, mas não.
diz que foi para o moço que lhe apareceu à porta a vender tudo mais um par de botas não perder o emprego.
então a minha mãe comprou a vibroplate e um cadeirão que faz massagens e um colchão ergonómico e umas enciclopédias e outras coisas que prefiro nem saber.
o moço ficou com o emprego mas eu fiquei sem parte da herança.
enfim, nem tudo é prejuízo, as minhas carnes vão certamente enrijecer, mas entretanto tenho de arranjar quem me carregue a vibroplate dum 3º andar sem elevador até à minha casa.
e como há mais umas coisas para despachar, ando há procura duma empresa de mudanças low cost.
(é o google que lhes chama low cost, não sou eu, que até as acho caras)
falo com um homem ao telefone, parece-me bem mas quer que lhe envie um e-mail.
está bem, qual é o e-mail?
castor - ponto - s a l t i t ã o - arroba...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

{numa qualquer realidade paralela}

eu entrava em casa e atirava com os sapatos de salto alto para um canto, desapertava a saia que caía no chão e largava-me para cima do sofá ainda a ler o correio.
no ar ouvia-se uma qualquer música quase jazz, tu aparecias com um copo de vinho tinto na mão, eu bebia um golo e de seguida massajavas-me os pés de unhas vermelhas impecavelmente pintadas, como nos filmes.
mas tu chegas sempre a casa depois de mim e eu não gosto de vinho e as unhas dos pés estão impecavelmente pintadas, mas só três, as que se vêem quando calço os sapatos abertos.
e não te deixava tocar nos meus pés sujos e suados, sabes como sou esquisita com os pés.
como é a finjir podíamos jantar sushi e fazer amor logo de seguida, sem preguiça ou problemas de digestão, e a minha lingerie seria preta e sexy, em vez deste bege deslavado do costume.

sábado, 17 de agosto de 2013

{longas são as noites que passo a dormir}

sonho sempre com o homem com quem vivi, não com o homem com quem vivo.
e nos sonhos, como na realidade, ele volta a fazer-me mal.
é como se o tempo voltasse atrás e eu continuasse à espera, a aguentar, a finjir, a tentar manter um show de marionetas com um emaranhado de fios a escapar-me dos dedos.
estranho é achar que não o amei.
ou secalhar amei e as preocupações eram tantas que entretanto me esqueci.
ou preferi esquecer.
o que eu sei é que o mal não se esquece.
e ele fez-me mal.
tudo à volta dele me causou tanto mal.
esqueci tudo, empurrei tudo para o sítio mais longe em mim, mas à noite ele foge desse sítio de mim que não sei onde é e invade-me os sonhos.
e eu acordo não como quem acorda dum sonho, mas como quem regressa do passado.
com a cabeça confusa e dorida que o coração já não se manifesta.
estranho é só sonhar com as pessoas que me fizeram mal, este homem e a minha mãe, nunca tenho sonhos bonitos.
também acordei a meio da noite e pensei que me doía um dente e fui lavar os dentes e voltei para a cama e agora não sei se seria sonho também.
tenho de parar de comer pastilhas elásticas umas atrás das outras.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

{preguiça, do latim pigritia}

ando uma preguiça.
não, não é uma preguiçosa (se bem que isso também), é mesmo uma preguiça, bicho.
ando por aqui, sem me afastar da minha zona de conforto (a casa, eu gosto tanto de estar em casa), com ar bonacheirão, o corpo indolente, a mente dormente, uma come e dorme, na paz dos anjos, tásse bem.
penso logo adio, podia ser o meu lema.
há temas que me apetecia desenvolver, aprofundar, posts que penso escrever mas que demoro e depois, depois olha, alguém já pensou o mesmo que eu e se assim o pensou, melhor o escreveu, do que eu, que nada escrevo.
fico-me assim na diáspora, na espuma dos dias, tudo fácil, tudo leve.
tantos livros por ler, filmes por ver, coisas para escrever, lugares para descobrir, gente para abraçar.
a casa, esta casa, às vezes é maldita, mais parece uma gaiola onde me prendo a mim mesma.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

{e o feriado?}

foi bom.
dormimos muito e juntos, o que nem sempre acontece.
ele ressonou, eu não.
acordamos tarde e com fome e fizemos um festim de restos de comida acompanhados com batata frita de pacote e vinho rosé.
vimos filmes e séries, lemos livros e revistas.
não fomos a lado nenhum, não fizemos nada.
ficamos quietos e juntos a aproveitar o silêncio da casa (dele), o que agora raramente acontece desde que somos avós.
demos beijinhos, namoramos.
os pés dele meteram-se com os meus e eu deixei, porque sei que ele gosta de me fazer as coisas que eu não gosto que ele me faça.
reclamei da barba dele e ele disse-me que sou bonita.
rimos e inventamos discussões sobre assuntos que esquecemos logo a seguir.
vimos o por do sol do sofá, com as janelas abertas de par em par.
foi um dia bom e eu não trocava um segundo desta tranquila cumplicidade por nenhuma paixão.
espera, isto é estar (ainda) apaixonada.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

{o sr. lourenço}

hoje lembrei-me do senhor lourenço, o dono da papelaria/tabacaria lá da rua onde cresci.
o senhor lourenço era alto e grisalho e dava-me pastilhas gorila.
tinha o nome mais esquisito e feio do mundo, achava eu do alto da minha (pouca) experiência de vida.
simpatizava com ele, tinha um ar bondoso, mas não lhe dava muita confiança.
por aqueles dias eu não dava confiança a ninguém, era muito senhora do meu nariz e todo o meu mimo era para o meu pai.
a loja do senhor lourenço era ao cimo da rua, fora do alcance de visão da janela de casa, e eu só lá ía acompanhada, normalmente com o meu pai, meter o totobola.
a papelaria/tabacaria do senhor lourenço ainda existe, mas já não me parece bonita nem grande e nem me deram pastilhas por lá ter ido.
e eu, que adoro mudanças, estou para aqui a pensar que há coisas que nunca deviam mudar, que deviam permanecer iguais ao que são na nossa memória.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

{o sono}

tenho problemas com o sono, sempre tive problemas com o sono, não gosto de dormir mas ah é tão bom dormir.
não sou pessoa de ter muito sono e pumba caír para o lado.
não, eu sou mais de começar a pensar que tenho de ir dormir, mas que ainda não me apetece ir dormir apesar de já estar com um bocadinho de sono e acabo por vencer o sono porque não me apetece largar o que estou a fazer para ir para a cama.
no dia seguinte tenho dores de cabeça, falta de energia e de concentração.
ou então vou para a cama tentar dormir e penso muito em muitas coisas diferentes, acho que se chama a isso sonhar acordada, e demoro uns quarenta minutos a adormecer.
às vezes fico com dores de cabeça à mesma porque me ponho a imaginar que horas serão e eu sem dormir, mas não vou ver para não me enervar mais.
parece-me que o meu  problema é a trasladação do sofá para a cama, por isso estou a pensar abdicar da cama e comprar um sofá gigante.
aliás, apetece-me esvaziar a casa toda e ficar só com o sofá gigante.
mas depois, quando consigo adormecer e não tenho sonhos e durmo tranquila, acordo ao fim de muitas horas e penso que dormir é tão bom, que bom que é estar ali na caminha e viro a almofada para estar mais fresca e viro-me a mim e fico na cama a dormitar até não aguentar mais o corpo dorido.
mas o sono é um velhaco e eu deterorio-me muito durante o sono.
vou para a cama de pele lisa e sedosa e uma hora depois de me ter levantado ainda tenho um vinco de almofada na cara.
e acordo quase sempre com uma borbulha, não sei porquê, vou para a cama de pele lisa e sedosa e algures nesta minha cara complicada nasce uma pequenina borbulha com cabeça branca, nas abas do nariz, junto à raíz do cabelo ou no queixo, donde se conclui que o sono me faz borbulhas.
e de tanto falar nele tenho efetivamente algum sono, apetecia-me tão mais fazer outras coisas, mas vou dormir.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

{às vezes não}

às vezes não é por me estar a esconder ou a fugir.
às vezes é porque me esqueço de que há mundo para lá deste mundo de quatro paredes.
às vezes é porque não me lembro de que o mundo não é este porto de abrigo, onde eu leio livros novos e ouço músicas antigas e a gata se espreguiça ao sol.
às vezes não é por querer.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

{daqui a 5 anos}

daqui a 5 anos espero estar exatamente como estou agora.
literalmente.
daqui a 5 anos gostava de ter cara de menos 5, porque vai ser nos próximos 5 anos que me vão aparecer as primeiras rugas e não sei como vou reagir.
mas, voltando à questão, daqui a 5 anos imagino-me tal e qual assim.
feliz, despojada, tranquila, amada, apaixonada, a caminho da perfeição, a work in progress.
porque raio tem a vida de mudar em 5 anos?
gosto dela assim, é perfeita.
tenho amor, tenho planos, tenho saúde.
falta-me assegurar a subsistência e daqui a muito menos de 5 anos tenho de ter isso resolvido.
de resto, é uma vida boa.
daqui a 5 anos espero que já ninguém me venha perguntar como me imagino daqui a 5 anos.
quero paz.
só isso.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

{totally toc}

sou obsessiva, compulsiva, excessiva, impulsiva e desorganizada.
(embora pareça a pessoa mais organizada à face da terra)
não sou teimosa mas sou persistente.
não esqueço.
(só esqueço as coisas banais)
não desisto.
não descanso.
sou excessiva.
eventualmente repetitiva.
e canso-me a mim mesma.

terça-feira, 16 de julho de 2013

{vizinhança}

gosto de viver num bairro, mas não faço vida de bairro.
não frequento o café, apesar de ir lá quase todos os dias tomar uma bica ao balcão, não frequento a igreja, não tenhos filhos na escola nem na catequese nem na ginástica, não tenho carro e por isso não faço ideia de quais são os carros de quem.
moro aqui há uma vida e só há bem pouco tempo a vizinhança soube o meu nome.
um dia entrei no mini mercado com o meu homem e mandei-o à parte de charcutaria pedir paio do lombo fatiado.
tal como o nome indica, o mini mercado é grande e quando chegou à parte da charcutaria o andorinha já não se lembrava ao que ía e gritou "ó .... é paio ou presunto?".
foi viral.
no dia seguinte trataram-me pelo nome no mini mercado, na pastelaria e na papelaria.
não é coisa que me preocupe, mas de alguma maneira deu-lhes abertura para me irem perguntando sobre a minha vida pessoal de vez em quando.
não levo a mal, sou exímia a desviar conversa, exceto no que à minha vizinha cusca respeita, essa mesmo sem falar incomoda-me seriamente.
apesar de tudo a minha cusca nunca teve o descaramento da vizinha do meu homem, que um dia o apanhou a jeito e lhe mostrou a ficha toda sobre mim.
e como é que ela sabia tanto se moramos a 5 km um do outro?
perguntando.
e porque a nora trabalhava numa loja de roupa ao pé da paragem do autocarro onde entrei uma única vez sem ter comprado nada.
as secretas deviam era contratar gente desta.
também estou preocupada com a minha cusca, já voltei há uns dias e ainda não me cruzei com ela.
facto inédito, porque se a memória não me falha, ela apanha-me sempre a entrar com as malas de viagem e faz de conta que quer ajudar e pegar numa, o que eu não deixo porque acho que ela vai fingir que a deixa caír a ver se se abre e descobre que tipo de cuecas uso.
pronto, isto para dizer que uma das filhas do meu homem parece que anda de namorico com alguém aqui do bairro e a coisa não me agrada.
também houve aquela vez em que pintei o cabelo de castanho ao fim de onze anos loura e depois de se ter cruzado connosco na garagem - mudei de cor de cabelo, não mudei de corpo nem de cara - outra das vizinhas do meu homem lhe foi perguntar se tinha trocado de namorada.
e houve também aquela vez em que tive uma insónia e resolvi ir para o emprego às seis da manhã, liguei para o táxi do bairro e vai-se a ver o taxista estava-se a divorciar e a tia da ex-mulher era vizinha da minha mãe e antes do meio dia já a minha mãe me estava a ligar porque eu andava metida com o taxista.
é por estas e por outras que eu adoro ter vizinhança.
(not)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

{regresso}

"Quase que gosto da vida que tenho.
Não foi fácil habituar-me a mim."
Pedro Paixão

regressei.
não me apetece afastar daqui.
nem retirar uma letra do que já escrevi.
para o bem e para o mal, esta transparência é o lugar onde me sinto bem.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

{esta é a minha família}

ainda ontem lhe dizia que às vezes parece que cresci num quadro da paula rego.
ela chamou-me fina, mas na verdade não é  por isso, é porque na minha família as mulheres são mais fortes e mais marcantes e, com o passar dos anos, predominantes, e só uma de nós se destaca pela beleza.
não que as outras sejam feias mas não têm traços de verdadeira beleza.
somos todas muito diferentes fisicamente, exceto eu e a bonita, que temos o mesmo olhar, mas ela é o cisne e eu a versão patinho feio.
não me incomoda, nunca me incomodou, sempre a adorei também por ser tão bonita.
exceto no que toca ao cabelo, invejava-lhe o cabelo.
na minha casa nunca fomos muito católicos, mas na casa da minha prima-irmã rezávamos antes de dormir e eu pedia sempre ao menino jesus para me dar um cabelo liso e comprido como o dela.
e na manhã seguinte corria para o espelho cheia de esperança.
o menino jesus nunca ouviu as minhas preces, talvez por isso hoje eu seja descrente da doutrina dele e da família dele, e só recentemente a ciência me enviou ajuda divina no que respeita a cabelos lisos.
nasci careca mas rapidamente a minha cabeça se transformou numa nuvem de lã indomável, um amontoado de cabelos eriçados, grossos como cordas de viola, que cresciam em todas as direções menos naquela para onde os deveria empurrar a gravidade.
cedo desistiram de me tentar pentear com escova e pente e passaram a molhar-me o cabelo para o prender num tótó.
todas as mulheres da minha família tinham cabelos lisos e bonitos, menos eu, a palha de aço.
o cabelo herdei-o do meu pai, que o tinha ondulado.
e por tudo isto lembrei-me deste programa que dá todas as quartas feiras na RTP1 e que não perco.

terça-feira, 21 de maio de 2013

{a avó ana}

nunca falo muito da avó ana porque não há muito a dizer.
só descobri a avó ana quando já era crescida, antes não nos tínhamos dado muito uma à outra.
quando eu era pequena as visitas à avó ana significavam tardes de brincadeira com a prima e o bolo de iogurte e o laço do avental da tia.
da avó podia contar com um cheque chorudo.
depois da minha prima nascer, a avó ana passou a viver com o filho mais velho e a nora na outra banda.
eu gostava de lá ir porque no regresso apanhávamos o cacilheiro no cais do ginjal e depois o autocarro verde de dois andares da carris da praça do comércio até casa.
sei que a avó ana era teimosa e que gostava de tudo arrumado e limpinho.
que gostava de perfumes e talcos e cremes.
e que era generosa.
a avó ana teve o primeiro filho aos dezassete e enviúvou aos vinte e um tinha acabado de ter o terceiro, o meu pai.
o avô antónio, de quem nem o meu pai antónio se lembrava, morreu num acidente de trabalho na construção da linha ferroviária.
a avó ana não teve uma vida fácil, viúva com três filhos no alentejo dos anos 40.
talvez por isso tenha aprendido a esconder os sentimentos e eu sinta que nunca cheguei a conhecê-la bem.
a avó ana usava carrapito e camisas com golas bordadas e nunca perdeu o sotaque alentejano nem largou o luto.
a avó ana era a única diabética que eu conhecia e deixava-me brincar com as tiras-teste.
dizia selada em vez de salada e pintiar em vez de pentear e fazia renda como ninguém.
ela bem nos tentou ensinar, às duas netas, mas eu nunca fui paciente nem prendada de mãos e a minha prima não passou do cordão e dos buracos.
a avó ana morreu velhinha e acarinhada e agradeço à minha prima todos os cuidados que sempre teve com ela.
ao longo dos anos os papeis foram-se invertendo e quem cuidava da avó era a neta.

domingo, 19 de maio de 2013

{dor muscular}

dizem os compêndios que o coração é um músculo.
a verdade é que o coração, quando doi, é como se fosse uma dor muscular.
primeiro uma pontada, uma guinada, a dor súbita e lancinante do músculo a rasgar.
depois fica magoado durante muitos dias, demora a sarar.
este meu músculo chamado coração já teve roturas, contraturas e contrariedades.
este meu músculo já viu uma pessoa morrer e já viu uma pessoa nascer.
às vezes parece rijo que nem pedra, mas depois esvai-se em lágrimas com um filme de qualidade duvidosa.
este meu músculo é teimoso, diz-me sempre que para a frente é que é o caminho.
na verdade temos andado por veredas para onda a vida nos empurrou, mas estamos à procura da estrada.
este meu músculo é um companheiro de todas as horas.
apesar das dores, dos apertos e arritmias, diz-me sempre que o meu destino é ser feliz, que o caminho se faz caminhando.
este meu músculo às vezes doi, mas nunca me deixou mal.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

{não dormir para não sonhar}

custa-me adormecer porque não quero sonhar.
não gosto dos meus sonhos, pelo menos daqueles de que me lembro durante o dia seguinte.
são sonhos com fantasmas do passado.
e eu não quero o passado de volta.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

{dona laura}

a minha vizinha é mais omnipresente que deus.
sempre que o carteiro toca para a minha campaínha ela consegue abrir a porta antes de mim.
tocam para mim mas ela acha-se a porteira ou guardiã do prédio ou é só doentiamente cusca, e claro que eu aposto na última hipótese.
mas hoje superou-se, aparentemente estava na rua e chegou ao mesmo tempo que o carteiro.
e eu, que estava dormir, que saltei da cama com o coração aos pulos porque o som da campaínha me causa taquicardia, que enfiei a primeira roupa que encontrei porque queria muito receber o que o carteiro me trouxe, comecei a encarar isto como um desafio, uma corrida.
ela que se prepare que vai ter luta.
vou assumir o controlo da minha campaínha.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

{pela rama}

o meu homem lida mal com os sentimentos, causam-lhe incómodo, embaraço, comichão.
o meu homem gosta assim de tudo levezinho, à superfície, pela rama.
já eu sou dada às análises profundas, aos dramas e às revoluções.
tentei algumas vezes discutir com ele, até mesmo brigar.
nunca consegui levá-lo para o campo das palavras.
nem para o campo dos olhares.
sempre que tentei vi-me sozinha no deserto.
e o que eu tenho aprendido com este homem é o exercício da leveza, do pragmatismo e da descomplicação.
à custa de muitos nervos, tenho aprendido a não remoer e deixar passar.
se há coisas que não se resolvem sem uma boa conversa, outras há que se resolvem por si mesmas, sem abrir feridas ou escarafunchar.
o que eu tenho aprendido com este homem é a respeitar as diferenças e a aceitá-lo como ele é.
o meu homem é leal como um cão e teimoso como um burro.
tem defeitos, mas tem acima de tudo nobreza de caráter.
põe-me doida quando diz que não sabe o que é isso do amor.
mas apazigua-me quando me diz que o amor deve ser o que nós temos.
e é capaz de ser mesmo.

terça-feira, 7 de maio de 2013

{até parece que é natal}

isto anda uma agitação.
ideias, ideias, ideias.
sou uma excelente gestora de sofá.
a sério.
as coisas que eu faço a partir do sofá, só a usar a cabeça e as mãos... impressive.

domingo, 5 de maio de 2013

{entretanto}

ontem, enquanto brincava com o r, dei por mim a pensar que quando ele tiver a minha idade eu terei a idade da minha tia que me criou, 80 anos.
espero que ele venha a ser melhor filho/sobrinho/neto do que eu.

{dia da mãe}

uma vez, numa aula de moral e religião -sim, eu fui das pessoas que teve essa disciplina de livre e espontânea vontade- o professor mostrou vários diapositivos e perguntava-nos que sentimentos nos despertavam as imagens.
uma das imagens era a de um casal abraçado a beijar-se numa praia ao por do sol.
sobre esta imagem ninguém tinha nada a dizer e o professor explicou que era natural porque representava a sexualidade e o amor, coisas que nós ainda não tinhamos descoberto.
durante muito tempo eu associei este episódio à minha mãe.
a minha mãe não me despertava muitas emoções porque ter uma mãe era algo desconhecido para mim.
as minhas amigas faziam coisas com as mães, como ir comprar roupa ou conversar sobre a escola ou sobre rapazes, que eu nunca fiz com a minha.
não as invejava, apenas achava engraçado e estranhava aquela cumplicidade.
para mim a minha mãe era o elemento de tensão, a pessoa que eu só beijava nas datas especiais e com quem quase não falava porque não era boa ideia irritá-la e tudo a podia irritar.
mas isso foi há muito tempo e não quero que pensem que não gosto da minha mãe.
claro que gosto, é família, cresci com ela.

terça-feira, 30 de abril de 2013

{onde estavas tu no 1º de maio?}

eu estava algures entre o largo do carmo e a avenida da liberdade às cavalitas do meu pai.
tenho na memória as ruas cheias de gente e um mar de cravos vermelhos.
e de repente um homem numa varanda e a multidão a gritar otelo.
tinha 4 anos e o meu pai disse-me "não tenhas medo".
como se ao lado dele eu tivesse medo de alguma coisa.
e essa foi a herança que o meu pai me deixou: um espírito combativo e curioso, um coração corajoso e o respeito pela liberdade.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

{idiota}

tive uma ideia que pode ser a ideia.
e desde que pensei nisso que durmo mal, tenho cada vez mais ideias acerca da ideia e a minha cabeça está um caos.
procuro, investigo e tenho mais ideias e mudo de ideias.
por estes dias não tenho escrito, só tenho lido e pensado e tido ideias.
preciso de respirar fundo e de fazer um plano.
não se preocupem, não é a roda nem a pólvora, não me parece que vá mudar o mundo, talvez traga vida ao meu mundo.
é só uma ideia sobre algo de que sempre gostei.
assim que parar de ter ideias e conseguir avançar, vos contarei.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

{enxaqueca}

deitei-me com dor de cabeça e acordei com enxaqueca apesar do comprimido.
passei um dia horrível.
é noite e ele liga-me para me perguntar se a minha conhecida que trabalha na farmácia se chama mafalda teixeira.
respondo-lhe que a única pessoa que conheço com esse nome é aquela atriz que namora com o kapinha.
diz que viu o nome na bata e que pensou que podia ser a minha conhecida porque era loura e o atendeu muito bem.
tinha franja, pergunto eu.
sei lá, responde ele, diz que não reparou.
como é que falas com uma pessoa e não sabes dizer se tinha franja, insisto.
e ele exalta-se, começa a argumentar que não vai à farmácia para reparar nas mulheres, fica chateado.
recapitulando: ele não se lembra se a pessoa que olhou nos olhos ao falar tinha franja, mas do nome que costuma estar pendurado na bata à altura do peito ele lembra-se.
certo.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

{16}

hoje a minha gata faz 16 anos.
tem direito a comer um pastel de nata.
e a ser mais apertada e beijada que o costume.
não imagino a minha vida sem ela.
mas depois vejo na televisão pessoas que guardam as cinzas do gato falecido num envelope de linho bordado e penso que são doidas.
as cinzas não se desfazem e misturam com o linho?

segunda-feira, 22 de abril de 2013

{os sem terra}

vi agora que hoje é o dia da terra e lembrei-me como às vezes me sentia só por não ter terra.
nasci e cresci na cidade, a minha terra.
era na minha terra que eu vivia, ia à escola, tinha os amigos.
depois chegava o verão e eu passava os três meses de férias sozinha, sem ter com quem brincar, porque todos tinham ido para a terra.
e eu já estava na minha terra.
quando ía para elvas era a terra da minha mãe e eu continuava a ser uma míuda da cidade noutra cidade.
nunca brinquei na terra.
nas minhas memórias de infância não há cheiro a terra, nem sabor de fruta arrancada das árvores, não há joelhos esfolados nem mergulhos no rio.
aliás, lembro-me que uma vez em elvas a minha família foi toda fazer um piquenique para o guadiana.
lembro-me que fomos muito cedo, ainda estava escuro, não sei porque fomos tão cedo.
lembro-me de me ter aproximado da beira do rio e do nojo ao ver a água esverdeada com mosquitos a pairar e ao sentir o lodo debaixo dos pés.
deve ter sido a única vez na vida em que molhei os pés num rio.
e lembro-me que a minha prima mais nova destravou o carro do avô, o meu tio 'mexias', que só parou com as rodas da frente já dentro de água, nós as primas mais velhas a gritar e os homens a tentarem segurar o carro com a gaiata lá dentro.
em elvas eu não brincava com os outros míudos, que corriam pelo castelo e se sujavam e eram mais pobres.
só brincava com os primos e em casa.
por isso nunca percebi esse entusiasmo com a terra, essa sede de regresso e o sossegar do coração ao matar saudades.
aliás, eu não gostava da terra, essa entidade abstrata que me roubava os amigos.
mas tenho pena de não ter uma terra, deve ser bom poder fugir para algum lugar onde nos sintamos bem, um lugar aonde sintamos que pertencemos.
eu não tenho terra.


{anti-fashionista}

perco horas a ver lojas online.
sapatos, preciso sempre de sapatos.
e malas.
depois, in loco, entro e saio das lojas de mãos a abanar.
não me identifico com o que vejo, afinal não preciso de nada daquilo.
e do que gosto chego à conclusão que tenho parecido.
aliás, o meu gosto está a mudar.
cada vez menos me apetece aperaltar tanto e já não consigo usar saltos altos todo o dia.
estou capaz de viver só com leggings, camisolas e sabrinas.
ando há mais de um mês para comprar uma camisa, já vi várias como eu queria, mas se gosto do tecido não gosto da cor, se gosto da cor tenho dúvidas no tamanho.
talvez fosse bom chegar a experimentar uma, só para variar.

sábado, 20 de abril de 2013

{estava um dia de sol como hoje}

cresci a ouvir dizer 'é toda pai'.
e eu não me importava, sabes como eu não gostava de nada que tivesse a ver com ela.
estive a ver fotos antigas, de quando era muito pequena e tinha os teus olhos, pequenos.
os olhos da avó ana, nunca falo da avó ana.
agora tenho os olhos dela, grandes e caídos, mas já não me importo de me parecer com ela.
como podem uns olhos mudar tanto?
tenho saudades tuas.
sempre.
eu ía dizer que hoje, de todos os dias, é o dia em que me lembro mais de ti.
que não é do dia em que me deixaste de que me lembro mais, que é do dia em que te deixei.
mas ontem fizeste-me tanta falta...
durante muito tempo senti-te perto, agora já não.
espero que tenhas seguido o teu caminho.
espero que estejas bem.
espero que não te tenhas esquecido de mim.
eu tenho saudades tuas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

{pai}

hoje está a ser um dia mau.
já tinha deixado escrito para amanhã a dizer que hoje nunca me lembro de ti, mas hoje lembrei-me.
não acordei bem, não me sentia feliz e de repente vi a data e tudo se encaixou.
afinal hoje também me lembro de ti, afinal hoje também sinto saudades tuas.
e saudades de mim.
hoje só queria voltar para um lugar e para alguém onde fui feliz.
ou então passar à frente, ir diretamente para um futuro melhor.
hoje estou encravada aqui.
fazes-me falta, fazes-me tanta falta.
ainda.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

{R.I.P.}

se há coisa complicada nesta vida é a morte, esperem até terem de organizar um funeral e vão ver.
agora estou a ter um dejá vu porque vão abrir a sepultura do meu tio.
as instruções no postal parecem simples, ligar para o cemitério até 3 dias antes da data marcada ou a campa será dada como abandonada.
ainda bem que liguei 15 dias antes, fizeram-me um questionário intensivo e eu não sei uma única resposta, queria poupar a minha tia mas afinal -ainda- há decisões a tomar.
de repente a ideia de deixar o meu próprio funeral preparado não me parece assim tão disparatada.
será que posso ir pagando em suaves prestações?

quarta-feira, 17 de abril de 2013

{os amigos}

os amigos são uma espécie que se subdivide em géneros.
há os bons, do peito, para sempre, que estão lá e não se interessam pelas circunstâncias, só por ti.
depois há os que nem são tão amigos mas que te embaraçam em público com manifestações inesperadas e exacerbadas de amizade para inglês ver.
e depois há os que te excluem propositadamente das memórias, como se não estivesses estado presente naqueles momentos.
esses são os amigos que lamento.
quer dizer que os perdi, que não fui uma boa amiga, que em algum momento lhes falhei e os magoei.

terça-feira, 16 de abril de 2013

{boston}

o mundo volta a sentir o medo.

{dias assim}

tenho um dos telemóveis sem bateria há dois dias aqui na sala, porque o carregador está noutra divisão e ainda não calhou ir para aqueles lados.
hoje sonhei com um post que queria escrever aqui.
ou melhor, pensei, porque já foi de manhã e foi mais um pensamento entre sonos.
tinha a ver com a amizade e a amizade via blogs por causa dum post que li e porque vi a entrevista da inês castel-branco no programa do outro que pergunta sempre o que dizem os teus olhos e ela dizia uma coisa que eu às vezes digo, que é o já não ter tempo para poder ter mais amigos.
ainda ontem falava das vicissitudes de ter um gato, hoje, mal saí da cama, calcei um chinelo vomitado.
acho que eduquei a gata bem demais, tenho de pensar como lhe vou explicar que afinal é preferível sujar o tapete ao chinelo.
respondi massivamente a anúncios de emprego e fiquei deprimida por encontrar ofertas com o salário abaixo do salário mínimo nacional.
comi uma laranja e sujei-me.
decidi lavar duas t-shirts à mão, isto é, pô-las de molho num alguidar, mas consegui apontar o chuveiro para mim e ficar toda molhada -só tenho um alguidar e é grande, só cabe na banheira-.
dói-me um bocadinho a cabeça porque os senhores que cuidam das áreas envolventes -ou lá como é correto chamar aos espaços ajardinados em volta do prédio- andaram mais de duas horas de volta do prédio com as máquinas de cortar relva.
o de volta do prédio é literal, primeiro ouço-os na sala e no quarto e depois no escritório e na cozinha.
tenho as janelas fechada mas cheira a relva acabada de cortar.
já disse que me dói a cabeça?
certo.
vou à rua beber um café.

{o normal, o habitual e outros que tal}

vi uma reportagem em que uma jornalista deambulava por um centro comercial e perguntava aos transeuntes se tinham tabus no que respeita ao sexo.
para meu espanto a resposta de todos era não.
mas quando a jornalista lhes perguntava se usavam vibradores ou se praticavam sexo anal e sexo oral, a resposta mudava para um isso não, só o normal.
portanto, ninguém tem tabus no que respeita ao sexo, só no que respeita à normalidade.
suponho que o normal é como quando se entra no café e se ouve o empregado perguntar se é o habitual.
o habitual é bom, é confortável, cumpre os requisitos mínimos e não desilude.
ninguém gosta de começar o dia com um mau pequeno almoço, o pão demasiado seco ou demasiado queimado.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

{isto está mau}

ando que parece que tenho uma bicha solitária.
uma?
uma manada.
e também já não são solitárias, têm por companhia toda a comida que já ingeri hoje e não foi pouca.
o problema é que me apetece comer mais.
não posso, penso eu enquanto levo mais uma colher de granola à boca.

{é tudo ou nada}

chegou o momento de experimentar novas fórmulas, de deixar de parte receitas antigas.
já fiz o que devia.
é chegado o momento de fazer as coisas à minha maneira.
não tenho muito a perder, tenho tudo a ganhar.
vou seguir o meu instinto.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

{tpm}

eu sou uma cabra quando estou com tpm.
ok, quando não estou também, mas quando estou sou pior.
e o meu gajo sofre de síndrome da gata borralheira.
ai se não fosse o amor íamos ter um serão tão divertido...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

{dia dos irmãos - parte II}

tive um irmão.
ou não chegamos a ser irmãos porque morreu antes de eu nascer.
foi por causa do meu irmão que nasci em casa.
ele nasceu numa maternidade e não era perfeito.
a minha mãe acha que lhe trocaram o filho na maternidade, mas eu acho que não, nas fotografias o bébé é parecido com o avô estevão.
é engraçado eu achar isso, porque nunca acho que os bébés se pareçam com ninguém.
seja como for, o meu irmão, que tinha o nome do meu pai e o nome do meu tio que me criou, não tinha a boca completamente formada.
contaram-me que não tinha a língua nem o céu da boca completos.
a minha mãe diz que quando pegou no filho viu que ele era perfeito, mas as mães contam os dedos dos pés e os dedos das mãos e não sei de nenhuma mãe que tenha aberto a boca ao filho para lhe ver o interior.
o meu irmão morreu oito ou nove meses depois de ter nascido, não se conseguia alimentar.
por causa do meu irmão eu fui uma espécie de bébé milagre.
diziam que a minha mãe só podia ter filhos deficientes, até ela ir ao doutor gastão, o bruxo da venda nova, que lhe garantiu que não era assim.
quando eu nasci a minha mãe já tinha feito abortos e tinha engordado mais de 20 quilos,  não fossem os desejos de grávida não satisfeitos fazerem com que eu nascesse com um terceiro olho na testa.
eu nasci em casa, com mais de 5 quilos, não admira que ela não gostasse de mim.
e eu ressenti-me, recusei-lhe o leite como ela me recusou o amor.
eu fui desejada por todos menos provavelmente por ela.
para ela eu fui o cumprir duma obrigação, o dar uma alegria a todos para que a deixassem em paz.
ela teve-me porque o meu pai queria ter filhos e porque a irmã não os podia ter.
e demitiu-se de funções no minuto a seguir.
deixou-os criarem-me, a parte dela estava feita.
o meu irmão era um bébé comprido.
suponho que esgotou o stock de genes bons e me deixou por destino ser baixa e gorda.


{dia dos irmãos - parte I}

parece que hoje é dia dos irmãos.
não tenho irmãos mas imagino que não seja assim tão diferente de ter primos.
eu adorava os meus primos, mas como era a mais nova sofria um bocado.
depois cresci e mesmo assim tinha de aturar os filhos dos primos.
quando era pequena e me perguntavam se queria ter irmãos respondia sempre que não, não sei se pelo que aturava aos meus primos ou se simplesmente por gostar muito do meu próprio mundo.
quando era míuda o que eu mais gostava era de brincar sozinha e o que mais ambicionava era que os meus pais me deixassem ficar sozinha em casa.
cresci num prédio habitado pela família, os fins de semana significavam que além dos primos ía haver os primos dos primos de visita.
nunca senti a falta de um irmão.
acho mesmo que ía ser muito esquisito conviver com outro ser gerado pelos meus pais.
será que ía ser parecido comigo?
e se ele (ou ela) viesse a gostar da minha mãe?
e se o meu pai gostasse mais dele que de mim?
mano, ainda bem que não nasceste.

terça-feira, 9 de abril de 2013

{um dia normal}

cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e para a maioria, é só um dia mais.

josé saramago

{parabéns míuda}

como em todos os anos anteriores, pensei que este ía ser o dia de anos perfeito, aquele em que eu estaria mais magra que nunca, o cabelo comprido, a pele lisa, os dentes brilhantes de brancos.
mas olha, ainda não foi desta.
o cabelo estava giro, mas eu continuo gorda, a pele resolveu ser alérgica e intolerante a partir dos quarenta e isto é coisa que já não desanda, as sobrancelhas metem medo porque tenho de as deixar crescer -outra vez- para ficarem certas.
de resto, passou-se.
passeei sozinha, comi um gelado no santini, fui visitar as princesas, jantei com ele.
atendi todos os telefonemas e fingi estar eufórica.
era segunda feira e ninguém estava particularmente feliz.
também não me senti infeliz.
foi mais um dia normal.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

{em abril, poemas mil}

O que há em mim é sobretudo cansaço 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas 
Essas e o que falta nelas eternamente 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço... 

Cansaço - Álvaro de Campos in "Poemas" 



{*}

domingo, 7 de abril de 2013

{mau feeling}

eu sabia que tanta barulheira durante a mudança não era um bom augúrio.
desde o dia da mudança que há música e conversas madrugada fora na rua, à porta de casa.
hoje há festa.
ou secalhar para a vizinha nova é um domingo normal.
para mim é que não, ainda estou a curar a enxaqueca de ontem.
detesto viver num prédio.

sábado, 6 de abril de 2013

{o primo de algés}

o orfão criado pela tia teresa cresceu um belo mancebo.
era o típico beto da linha, bonito e educado.
a mim intimidava-me tanta beleza.
quando ele ía lá a casa eu escondia-me debaixo da mesa de pé de galo.
tinha vergonha.
não sei porquê, não me lembro sequer de ele me dirigir a palavra, nunca lhe dei oportunidade, fugia.
a mesa de pé de galo estava num canto da sala, de frente para o sofá, coberta com uma toalha curta de renda e cheia de molduras.
eu escondia-me debaixo de uma mesa onde todos me viam.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

{cem anos de solidão}

o meu avô tinha um nome em cada lado da fronteira, estevão do lado de cá e esteban do lado de lá.
o meu avô estevão teve um irmão josé e três irmãs: a corica, a sílvia e a teresa.
a corica casou com o mata sete, desconheço o nome verdadeiro, sei que numa rixa na raia alentejana por causa de contrabando despachou sete, não sei se os matou mesmo ou se era só lenda.
o estevão e o josé deixaram de se falar ainda novos por causa da sílvia.
a sílvia era muito bonita e veio do alentejo para lisboa e diz que caíu na vida.
quando voltou à terra, a sílvia ía grávida e sem pai para o filho e o irmão josé, que de todos era o que estava melhor na vida, era manageiro, renegou-a e culpou a irmã teresa.
o meu avô achou mal negar cama e mesa à irmã grávida, independentemente do tamanho da sua desgraça.
lutaram e nunca mais se falaram.
a sílvia acabou por morrer de sífilis logo após o nascimento do filho, que veio a ser criado no bairro de algés pela irmã teresa, como se seu fosse.
a tia teresa era uma senhora muito bonita e distinta.
adorava perder-me na casa dela, entre plumas e purpurinas, luvas compridas e estolas de raposa.
viveu um amor proíbido com um homem casado, foi teúda e manteúda.
mas ele levava-a à opera e aos melhores restaurantes de lisboa e nunca lhe falhou.
até se dar o 25 de abril, altura em que, dizia-se, ele fugiu com a família para o brasil.
ela recebeu uma carta de amor com um carimbo do brasil, onde ele dizia que a amava mas que não mais se poderiam ver.
e nunca mais se viram.
durante muitos e muitos anos todos os meses a conta bancária da tia teresa recebia um generoso depósito, até que um dia acabou.
foi com a tia teresa que aprendi que uma chávena de chá nunca se recusa, mas que é indelicado beber mais de duas.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

{a julieta}

quem morreu foi a julieta, a prima da minha mãe.
morreu velhinha, sem memória.
um dia em que fui visitar a minha mãe e a minha tia, estava a julieta sentada nas escadas à entrada do prédio, saia à meia banda e só um brinco nas orelhas.
disse que se tinha sentado ali para não estar sozinha em casa, assim, se lhe desse alguma coisa sempre a viam da rua.
perguntei-lhe porque desceu dois lances de escada em vez de subir um, porque não foi lá para casa.
respondeu-me que não se tinha lembrado e se eu agora estava lá a viver com a minha irmã.
foi estranho ir vendo a julieta ficar igual à mãe, mas ainda é mais estranho confundirem-me com a minha.
sempre que me perguntavam no emprego se tinha micas, respondia que o micas é o marido da julieta -diminuitivo de amilcar- agora perdeu a piada.
na minha família há nomes estranhos, sempre gostava de saber que raio passou pela cabeça da tia corica ao batizar as filhas.
os rapazes safaram-se, todos corridos com a letra j, mas além da julieta teve a eunice, a rosete e a brancolina.
se corica já não é um nome normal, brancolina não lembra a ninguém.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

{planos}

eu estava a planear dormir a sesta, mas a vizinha nova planeou fazer a mudança.
detesto morar num prédio.
aposto que ela planeava ter mobília, mas pelos sons que ouço vai ter móveis feitos em mais pedaços dos que os do ikea antes de se montarem.
mais uma vez, a minha janela sabe tudo.
pelo som a vizinha nova é preta -africana para ser politicamente correta- e o homem das mudanças diz asneiras.

{premonição}

outro dia li num blog alguém dizer sobre o seu dia de aniversário que sentia ter chegado à metade da sua vida, que era algo que sentia desde pequena, isto de ir morrer cedo.
eu também acho que estou em metade da minha vida, o que é uma merda, porque eu quero viver mais.
não sei para quê, as perspetivas de futuro não são animadoras, este país não é para velhos, mas quero viver muito.
os meus avós maternos morreram tarde na vida, velhinhos e eu quero morrer velhinha.
antigamente tinha medo de morrer, agora não.
não é que me apeteça morrer, nada disso, mas já não me falta o ar no peito quando penso que também eu um dia vou desaparecer.
é uma merda, só pode querer dizer que já estou a ficar velha, só os velhos é que não têm medo da morte.
alguns, porque outros têm.

{urubus e outras aves necrófagas}

há dias em que penso que é parvoíce manter este blog, um quase diário a céu aberto.
no meu céu de vez em quando pairam urubus e outras aves necrófagas, que não me assustam, são antes um desafio.
sempre achei de mim que sou o tipo de pessoa que se ama ou se odeia e nunca me esforcei para cativar.
no entanto, fico admirada por me odiarem.
o ódio dá trabalho, requer empenho.
pessoalmente acho que pessoas de quem não gosto não merecem o meu tempo, esforço ou pensamentos.
sou mais dada ao desprezo.
e eu sou inofensiva.
determinada, persistente, mas inofensiva.
os urubus e outras aves necrófagas gostam de vir aqui -é mais ali ao lado- ver se já morri.
lamento desiludir tão devota audiência, mas creio que estou para durar.
sou inofensiva, mas sou ruim.
não quebro.
e, como as árvores, tenciono morrer de pé.
daqui a muitos, muitos anos.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

{à janela}

de todas as janelas da praceta há um gato com cio que escolheu uivar debaixo da minha.
e o coitado parece ter cio todas as madrugadas ou então não tem cio e uiva todas as noites por outra razão qualquer.
às vezes olho para a gata à procura duma reação, mas ela limita-se a olhar-me ensonada.
tenho pena do gato.
a minha janela é um mundo ou tem qualquer coisa especial que atrai pessoas e animais.
a senhora que lava a escada e a cusca do prédio falam da vizinhança debaixo da minha janela.
os empregados do escritório de contabilidade fazem uma pausa para o cigarro e falam da vida, debaixo da minha janela.
a adolescente briga com o namorado antes de entrar no prédio, debaixo da minha janela.
a minha janela sabe a vida de toda a gente.

{i'm dreaming of white}

apetecia-me esvaziar a casa.
livrar-me dos móveis todos, das estantes, da cama.
arrancar o papel de parede e os candeeiros da entrada, livrar-me dos dourados.
apetecia-me pintar tudo de branco, comprar um sofá gigante e passar a dormir na sala, só com a lareira.
e o resto da casa vazia, as janelas sem cortinas.

domingo, 31 de março de 2013

{inutilidades}

o corpo humano é complicado, para que temos unhas, não vejo utilidade nenhuma às unhas se não a de servirem de distração a quem as roi.
as minhas são fracas e partem-se, lascam-se, suicidam-se.
eu sou péssima a cuidar das unhas, ficam sempre aos bicos, feias e incómodas.
agora não me apetece perder tempo a pintá-las, mas acabo por pintar porque parecem sempre sujas.
gosto de umas mãos bonitas, de unhas curtas e arranjadas sem estarem pintadas, mas as minhas unhas são feias e parecem estar sempre sujas.
também não encontro particular utilidade às sobrancelhas, para que serve um tufo de pelo no sobrolho.
as minhas andam sempre a precisar de crescer para corrigir as falhas -é o que me dizem- mas depois crescem como se fossem um arbusto, desordenadamente e sem simetria e trazem pelos brancos.
eu não quero ver pelos brancos de cada vez que me olho ao espelho, basta-me olhar para a raíz do cabelo.
depois pego numa pinça e é como se tivesse a roer as unhas, arranco pelos a mais e as sobrancelhas não ficam bonitas nem simétricas, mas passo um bom bocado entretida.

terça-feira, 26 de março de 2013

{já não sou loura, mas sou fácil}

estava a ler isto e cheguei à conclusão de que o meu homem ideal é bem capaz de ser um biscateiro.
é que grande parte dos problemas que preciso que me resolvam passam por trocar lâmpadas em sítios onde não chego nem de escadote, arranjar torneiras e pintar paredes.
e se for um biscateiro bem sucedido, um homem ocupado, provavelmente o perfume dele vai ficar no ar mesmo depois de se ir embora.
difícil vai ser levar-me a jantar em veneza, mas eu sou uma gaja fácil, contento-me como um jantarito nos jardins da gôndola de sete rios.


sexta-feira, 22 de março de 2013

{tpm}

fala-se por demais nas hormonas femininas e suas consequências.
o que nunca se fala é das alterações hormonais no masculino.
e eu estou capaz de jurar que o meu homem sofre de tpm durante um mês a fio.
apre, que feitiozinho de princesa!

terça-feira, 19 de março de 2013

{bidé}

tenhos os pés gelados e não me apetece atender o telefone.
acabei de acordar, detesto quando me ligam e ainda estou a acordar.
se não atendo já sei que mais tarde não me vai apetecer ligar de volta, não gosto de falar ao telefone.
se atendo vão perguntar-me que voz é essa e tenho de explicar que sim, é tarde para as pessoas normais, mas acabei de acordar.
decido sentar-me e meter os pés no bidé e deixar a água quente correr, enquanto uso o telemóvel para jogar.
nunca dou uso ao bidé.

segunda-feira, 18 de março de 2013

{constatação do dia}

pego no espelho de aumentar para ver os vestígios da conjuntivite.
e constato que preciso mesmo de fazer o buço.

domingo, 17 de março de 2013

{estranheza}

há estranheza nestes dias de luz cinzenta, em que a noite e a manhã quase se confundem.
há a estranheza da ausência do que era já intrínseco.
e há a dureza de ter que enfrentar esta solidão.
estranho-te.

sexta-feira, 15 de março de 2013

ora toma

não penses que a tua vida está um buraco sem fundo.
a vida ou o karma encarregam-se logo de provar que ainda pode piorar.

quinta-feira, 14 de março de 2013

nada de nada

toda a gente tem família e planos e coisas para fazer.
e sonhos.
eu não tenho nada.
provavelmente não quero ter nada.
tenho, de certa forma, a vida que sempre quis: cheia de nada e de ninguém.
e gosto de viver assim escondida da vida.
mas às vezes penso para comigo que devia de ter alguma coisa ou alguém que me amasse incondicionalmente.
mas não tenho nada.
nem fama nem fortuna.
nem sonhos.
se pudesse viajava sem nada.
perdia-me no mundo.
mas eu não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada.
aparte isso álvaro de campos tinha em si todos os sonhos do mundo.
mas eu não tenho sonhos, não tenho planos nem projetos.
não tenho nada.

quarta-feira, 13 de março de 2013

o evangelho segundo joão

s. joão sempre foi o meu favorito do novo testamento.
há muito tempo eu era jovem e cheia de certezas e li esta frase ao chegar ao meu encontro inicial "não foste vós que me escolheste, fui eu que vos escolhi".
pensei logo que aquilo não fazia sentido, eu estava ali porque queria, era uma escolha minha, de mais ninguém.
três dias depois as minhas certezas absolutas tinham sido vigorosamente abanadas e pensei que afinal aquela frase fazia todo o sentido e como eu era imatura e cega três dias antes.
há muito tempo eu era jovem e tinha fé e praticava o bem.
com o passar dos anos vi a luz.
uma luz que me afastou da fé mas que me aproximou de mim.
recordo sempre com saudade os dias em que eu acreditava.
era tão mais feliz.

domingo, 10 de março de 2013

ontem como hoje

ainda sinto o mesmo drama interior.
domingo a partir das cinco da tarde começo a pensar que tenho de lhe telefonar, porque parece que lhe telefono sempre ao domingo, mas telefono daqui a nada, ainda não, agora estou a ver um filme, mais daqui a bocado, agora vou comer.
e se não telefono domingo telefona ela segunda a acusar-me de não ser boa filha.
mas quando é que ficou estipulado que eu tinha de telefonar ao domingo?

os dias comemorativos

não é só do dia da mulher que não gosto.
não gosto dos dias de nada, nem do ano novo, nem do carnaval.
não gosto que seja o calendário a determinar o que faço ou o que sinto.
por causa disso houve uma vez um domingo que era dia da mãe e às seis da tarde eu ainda não tinha dado a prenda à minha mãe.
era adolescente e não me lembro do que comprei com a minha semanada.
sei que a minha mãe ficou furiosa e me acusou de não ser boa filha porque achou que não lhe tinha comprado nada.
se ela fossa boa mãe importar-se-ía?
não interessa, provavelmente ficou magoada.
e eu sentia-me cada vez mais esmagada pelo passar das horas, incapaz de fingir uma emoção que não sentia.
só anos mais tarde aprendi a fingir.

segunda-feira, 4 de março de 2013

peter pan

outro dia uma amiga de infância deixou-me um comentário no facebook a dizer que sou como o peter pan, que nunca mudo.
até era um elogio, acho eu.
a verdade é que os meus amigos dos tempos de estudante e do grupo de jovens, são aqueles amigos com quem posso sempre contar, mas que não vejo com muita frequência.
sempre estarei lá para eles como sei que eles estarão para mim.
haja o que houver.
e é verdade que as pessoas tendem a achar que não mudei.
mas mudei, mudámos todos.
provavelmente sempre fui a mais extrovertida e continuo a ser.
a vida mudou-nos a todos, a uns secalhar mudou menos porque se recusaram a mudar.
ou porque as mudanças foram mais ténues
eu sou a mesma que era aos 18 anos.
apenas talvez um pouco mais madura.

borboletas

uma vez trabalhei com um holandês que me disse que eu era uma pessoa borboleta, que as coisas que me diziam ou me aconteciam pareciam não ter nenhum peso em mim, que eu continuava a pousar de flor em flor, como se não se tivesse passado nada.
na verdade nesta altura o que se passava é que eu trabalhava com chefias déspotas, que se aproveitavam da inexperiência e imaturidade dos meus colegas, na sua maioria recém licenciados e no seu primeiro emprego, para exercerem pressão e os obrigarem a trabalhar de forma semelhante à escravatura.
não era o meu caso, eu já tinha 30 anos e aquele era o meu 5º emprego e não contavam com a minha teimosia natural.
mas não é verdade a crítica.
eu levo em consideração todas as críticas, penso nelas, mesmo quando inicialmente lhes reajo mal são objeto de meditação e, frequentemente, de ação corretiva.
de toda a panóplia de defeitos com que o cosmos me abençoou, o autismo não foi um desses defeitos.
sei ouvir e sei pensar.
e sei dar o braço a torcer.
e como doi às vezes dar o braço a torcer!
já fiz asneira da grossa na vida e nunca me arrependi, mas sempre assumi.
o arrependimento não faz parte de mim, tudo o que faço faço com convicção.
se me espalhei foi porque tinha a certeza de que não me ía espalhar ou então não tinha a certeza mas decidi arriscar na mesma.
claro que também já senti arrependimento, mas sinceramente não me lembro.
mas já me devo ter arrependido de magoar alguém.



domingo, 3 de março de 2013

that i would be good

a felicidade dá trabalho

isto da felicidade dá trabalho, dá muito trabalho.
a felicidade é a desconstrução da infelicidade.
nasci feliz.
e nasci para ser feliz.
e isso é uma verdade insofismável.
cresci a acreditar que tinha um super poder, este da felicidade.
nunca me preocupava muito porque sabia que tudo ía correr bem.
simplesmente sabia, sentia-o dentro de mim.
mas vocês não acreditariam se vos contasse o quanto já fui infeliz.
houve muitos dias da minha vida em que adormeci e acordei a pensar como havia de voltar a ser feliz.
o meu problema é que não estava preparada para ter problemas.
não sei ter problemas.
eu sou das soluções, das ações, do resolver.
durante muitos dias da minha vida vagueei perdida nos problemas, perdida da felicidade, perdida de mim.
abandonada pelo meu super poder.
a suor e sangue conquistei o momento em que comecei a deixar de ser infeliz.
mas a partir de então a minha felicidade mudou.
já não é um super poder, é um pássaro numa gaiola.
e como todos os seres que vivem presos numa gaiola, é frágil e assustadiça.
assim, a minha felicidade passou a ser uma constante fuga para a frente.
não posso parar para pensar que não sou feliz, não vá a infelicidade apanhar-me e atirar-me outra vez para aquele lugar.
e eu não quero, eu não vou voltar aquele lugar.
porque esse lugar é fundo e é escuro e é tão longe que ninguém me pode ir lá buscar.
esse lugar é dentro de mim e eu nunca mais lá vou ficar.
a noção da fragilidade da felicidade fez de mim uma pessoa talvez menos feliz, mas mais forte e mais atenta.
hoje já não tenho um super poder, mas sou uma guerreira.
se é verdade que o que não nos mata nos torna mais fortes, também é verdade que nos deixa cicatrizes, marcas na pele que ardem por dentro.
porque a dor nunca sara.
a dor é uma velhaca traiçoeira, não se lhe pode dar confiança.
é um vírus oportunista que fica para sempre cá dentro, à espera, à espreita, pronta a atacar pela calada.
a dor fica-nos nos ossos e liga-se à saudade no coração.
mas a felicidade corre livre na corrente sanguínea de quem a traz no adn.
a felicidade dá trabalho.
mas há outra maneira de viver?

sexta-feira, 1 de março de 2013

o facebook

(r)- eu acho tão engraçado reencontrar os antigos colegas da faculdade e do liceu.
(eu)- mas tu lembras-te dos colegas do liceu? eu não, só me lembro de um ou dois e não sei o apelido de ninguém.
(r)- ai eu lembro e gosto de saber o que fazem agora, onde moram, de ver as fotografias dos filhos, etc.
(eu)- eu devo ter azar mas todos os que me pediram amizade só me deram arrepios, estão todos velhos, carecas e barrigudos, preferia recordá-los como eram.
(r)- eu acho muito giro e agora trocamos números de telemóvel para um dia destes nos reencontrarmos.
(eu)- e já te encontraste ou falaste com alguém?
(r)- ainda não, mas quando quiser tenho o contacto.

há 20 anos eu sabia o nome completo daquelas pessoas, os telefones fixos e as moradas e nunca os procurei.
agora sei o telemóvel para se um dia lhes quiser ligar.
o que é que mudou?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

cancrozinho

quando o meu pai morreu, num dia de abril, já não era o meu pai.
era um corpo esquelético e sem alma deitado numa cama.
a última vez que aquele corpo tinha tido uma centelha de vida era o dia dos meus anos.
e no dia dos meus anos, o meu pai moribundo regressou por momentos à vida.
tenho a certeza de que foi por mim, que apenas um grande amor seria capaz de tal milagre.
durante mais de um ano vi o meu pai morrer todos os dias.
e no dia em que finalmente aconteceu eu estava lá, à cabeceira, e vi a morte.
por isso não me venham dizer que não posso usar a palavra cancrozinho.
conheço o cancro há muitos anos, desde a infância.
já me roubou muita vida e muitas lágrimas.
mas não me há-de roubar a coragem.
não quero que recordem o meu pai com pena pelo que sofreu e pela doença.
quero que o recordem pelo homem grande que foi e por tudo o que fez.
o cancro não era o meu pai.