quando o meu pai morreu, num dia de abril, já não era o meu pai.
era um corpo esquelético e sem alma deitado numa cama.
a última vez que aquele corpo tinha tido uma centelha de vida era o dia dos meus anos.
e no dia dos meus anos, o meu pai moribundo regressou por momentos à vida.
tenho a certeza de que foi por mim, que apenas um grande amor seria capaz de tal milagre.
durante mais de um ano vi o meu pai morrer todos os dias.
e no dia em que finalmente aconteceu eu estava lá, à cabeceira, e vi a morte.
por isso não me venham dizer que não posso usar a palavra cancrozinho.
conheço o cancro há muitos anos, desde a infância.
já me roubou muita vida e muitas lágrimas.
mas não me há-de roubar a coragem.
não quero que recordem o meu pai com pena pelo que sofreu e pela doença.
quero que o recordem pelo homem grande que foi e por tudo o que fez.
o cancro não era o meu pai.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
mal fadada
descendo duma longa linhagem de pessimistas.
quando tinha 12 anos parti um braço e quando o médico disse que eu tinha que ser operada a minha mãe chorou tanto que quando o meu pai chegou ao pé de mim lhe perguntei se ía morrer.
porque, tendo eu tão má sina, me pareceu natural ter um azar e morrer.
cresci a ouvir dizer "ai tu não tens sorte nenhuma", "ai bem criada mal fadada", "ai não vais conseguir".
a verdade é que tanto pessimismo fez de mim uma otimista crónica.
e por achar que as coisas se vão resolver brevemente - na verdade isto foi o que eu achei há quase um ano atrás, agora acho que vão ter mesmo de se resolver, que eu vou ter de fazer com que algo aconteça - quase ao fim de um ano ainda não contei à minha mãe que estou desempregada.
porque só a ía preocupar e porque não sei se aguento lidar com o desemprego e com ela.
mas outro dia pensei começar a prepará-la, falei-lhe nas dificuldades que as empresas enfrentam, que na 'minha empresa' as coisas também não vão bem, que ainda outro dia despediram a A.
uma semana depois telefonou-me e a primeira coisa que me disse foi "então já foste despedida?".
quando tinha 12 anos parti um braço e quando o médico disse que eu tinha que ser operada a minha mãe chorou tanto que quando o meu pai chegou ao pé de mim lhe perguntei se ía morrer.
porque, tendo eu tão má sina, me pareceu natural ter um azar e morrer.
cresci a ouvir dizer "ai tu não tens sorte nenhuma", "ai bem criada mal fadada", "ai não vais conseguir".
a verdade é que tanto pessimismo fez de mim uma otimista crónica.
e por achar que as coisas se vão resolver brevemente - na verdade isto foi o que eu achei há quase um ano atrás, agora acho que vão ter mesmo de se resolver, que eu vou ter de fazer com que algo aconteça - quase ao fim de um ano ainda não contei à minha mãe que estou desempregada.
porque só a ía preocupar e porque não sei se aguento lidar com o desemprego e com ela.
mas outro dia pensei começar a prepará-la, falei-lhe nas dificuldades que as empresas enfrentam, que na 'minha empresa' as coisas também não vão bem, que ainda outro dia despediram a A.
uma semana depois telefonou-me e a primeira coisa que me disse foi "então já foste despedida?".
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
mudar de vida se tu não estiveres satisfeito
gostava de arranjar um emprego diferente, a fazer algo que nunca fiz.
um emprego de arregaçar as mangas e dar forma às ideias.
um emprego em que team work fosse mais do que um chavão.
gostava de arranjar um emprego que me desse muito trabalho e ainda mais prazer.
um emprego que me entusiasmasse e me fizesse aprender.
um emprego que me fizesse crescer.
gostava de arranjar uma emprego em que eu não fosse mais um número, engolida por prazos e por egos, como nas multinacionais cheias de regalias e de stress.
gostava de arranjar um emprego sem objetivos, prémios ou avaliações.
um emprego, apenas, onde pudesse dar tudo de mim.
um emprego de arregaçar as mangas e dar forma às ideias.
um emprego em que team work fosse mais do que um chavão.
gostava de arranjar um emprego que me desse muito trabalho e ainda mais prazer.
um emprego que me entusiasmasse e me fizesse aprender.
um emprego que me fizesse crescer.
gostava de arranjar uma emprego em que eu não fosse mais um número, engolida por prazos e por egos, como nas multinacionais cheias de regalias e de stress.
gostava de arranjar um emprego sem objetivos, prémios ou avaliações.
um emprego, apenas, onde pudesse dar tudo de mim.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
isto é o fundo do poço
são duas da manhã e estou a comer bolachas de água e sal com maionese.
porque não tenho mais nada para comer.
quer dizer, tenho iogurtes, mas daqui a nada vou deitar-me e não me apetece comer um iogurte.
e - ainda - não é por falta de dinheiro.
é porque andava tão feliz por ser uma pessoa quase sem perímetro abdominal desenvolvido, mas engordei dois quilos e meio e estão todos concentrados na pança.
por isso decidi voltar à dieta de iogurtes com cereais, maçãs, bolachas de água e sal e muita água.
mas tenho fome.
e além dos iogurtes o frigorífico só tinha o frasco da maionese.
porque não tenho mais nada para comer.
quer dizer, tenho iogurtes, mas daqui a nada vou deitar-me e não me apetece comer um iogurte.
e - ainda - não é por falta de dinheiro.
é porque andava tão feliz por ser uma pessoa quase sem perímetro abdominal desenvolvido, mas engordei dois quilos e meio e estão todos concentrados na pança.
por isso decidi voltar à dieta de iogurtes com cereais, maçãs, bolachas de água e sal e muita água.
mas tenho fome.
e além dos iogurtes o frigorífico só tinha o frasco da maionese.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
bate boca
estou-me a... nas tintas para esta moda dos posts publicitários.
mas é uma neura passear pelos blogs outrora favoritos e ver a mesmíssima coisa em todos.
a sério.
faz com que eu não meta lá mais os pés.
(ou será os dedos? blogs... teclas...)
mas é uma neura passear pelos blogs outrora favoritos e ver a mesmíssima coisa em todos.
a sério.
faz com que eu não meta lá mais os pés.
(ou será os dedos? blogs... teclas...)
também não gosto do dia dos namorados, evidentemente
por favor, deixem os ursos de peluche (e todos os outros animais) ficarem sossegados nas memórias da infância.
daí em diante o único tipo de urso de que uma mulher precisa é um que lhe pague as contas.
ou quando muito daquele urso que simboliza uma marca espanhola de marroquinaria e bijuteria (eu pessoalmente não gosto).
ou quando muito daquele urso que simboliza uma marca espanhola de marroquinaria e bijuteria (eu pessoalmente não gosto).
façam amor, façam sexo, mas não façam figuras de urso.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
volver
dizem que não se deve voltar aos lugares onde já fomos felizes, porque do que se tem saudade é das pessoas ou dos momentos que marcaram o lugar.
mas eu hoje voltei a um dos lugares onde já fui muito feliz há quase vinte anos.
já lá tinha voltado, já lá tinha passado, mas não tinha ido rever as pessoas.
e foi tão bom ser reconhecida e acarinhada e voltar a sentir que pertenço a algum lugar.
as avenidas novas perderam muito do seu glamour, tantas lojas por onde passava todos os dias que agora estão fechadas, tantas pessoas que via todos os dias que partiram.
mas foi tão bom reencontrar um pouco de mim mesma por ali.
mas eu hoje voltei a um dos lugares onde já fui muito feliz há quase vinte anos.
já lá tinha voltado, já lá tinha passado, mas não tinha ido rever as pessoas.
e foi tão bom ser reconhecida e acarinhada e voltar a sentir que pertenço a algum lugar.
as avenidas novas perderam muito do seu glamour, tantas lojas por onde passava todos os dias que agora estão fechadas, tantas pessoas que via todos os dias que partiram.
mas foi tão bom reencontrar um pouco de mim mesma por ali.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
dúvida impertinente
a questão é a seguinte:
tenho aqui uma caixa de bolinhos amanteigados com recheio de chocolate de que gosto.
mas se comer demasiados fico enjoada.
já me sinto a ficar enjoada mas vou comer mais um.
e, provavelmente, logo de seguida mais outro.
eu sei que vou ficar enjoada mas continuo a comer os bolinhos.
vocês conseguiriam parar?
tenho aqui uma caixa de bolinhos amanteigados com recheio de chocolate de que gosto.
mas se comer demasiados fico enjoada.
já me sinto a ficar enjoada mas vou comer mais um.
e, provavelmente, logo de seguida mais outro.
eu sei que vou ficar enjoada mas continuo a comer os bolinhos.
vocês conseguiriam parar?
a minha mãe
a minha mãe telefonou-me e não pude atender, o que em si não tem nada de especial.
o problema é que isto já foi ontem e ainda não consegui falar com ela.
ela não me vai voltar a ligar, faz uma espécie de jogo de terror psicológico para me fazer sentir que estou em falta, que sou má filha, que não lhe ligo nenhuma, etc.
a seguir vai ligar para o meu namorado, mas para mim não volta a ligar.
eu sei que ela está bem, mora ao lado dum café onde vai todos os dias e o café é dos pais dum colega meu de escola, portanto eu ligo para o café e sei que está viva e oferecem-se logo para subir ao 3º andar a confirmar.
mas ainda não liguei para o café, detesto fazer o papel de maluca, porque tenho estado constantemente a ligar lá para casa.
e eu sei que está em casa, na sala ao lado do telefone, a dormir com a televisão com o som à taberna, no volume máximo, eu consigo ouvir a Fátima Lopes quando entro no prédio.
a minha mãe e a minha tia, vivem juntas, duas surdas, portanto.
têm uns cinco telemóveis entre as duas, fora os que já perderam, todos desligados e arrumados nas caixas.
nunca ninguém conseguiu fazer com que aprendessem a utilizá-los.
telefone fixo sem fios também já existiu, mas nunca o punham a carregar.
voicemail nem perguntem.
de maneiras que o único telefone que existe e que funciona está no hall de entrada, preso à parede, no móvel onde só há fotografias minhas e de pessoas que já morreram.
(creepy)
o meu namorado sugeriu instalar um sistema com uma luz, como se faz em casa de surdos, para saberem que o telefone está a tocar.
mas não me parece que vá resultar, o telefone tem uma luzinha que pisca quando elas não atendem uma chamada e elas também nunca veem essa luzinha.
eu é que sou uma má filha.
um dia passo-me e mando-lhes um telegrama.
escrito, porque o telefone não vão atender.
o problema é que isto já foi ontem e ainda não consegui falar com ela.
ela não me vai voltar a ligar, faz uma espécie de jogo de terror psicológico para me fazer sentir que estou em falta, que sou má filha, que não lhe ligo nenhuma, etc.
a seguir vai ligar para o meu namorado, mas para mim não volta a ligar.
eu sei que ela está bem, mora ao lado dum café onde vai todos os dias e o café é dos pais dum colega meu de escola, portanto eu ligo para o café e sei que está viva e oferecem-se logo para subir ao 3º andar a confirmar.
mas ainda não liguei para o café, detesto fazer o papel de maluca, porque tenho estado constantemente a ligar lá para casa.
e eu sei que está em casa, na sala ao lado do telefone, a dormir com a televisão com o som à taberna, no volume máximo, eu consigo ouvir a Fátima Lopes quando entro no prédio.
a minha mãe e a minha tia, vivem juntas, duas surdas, portanto.
têm uns cinco telemóveis entre as duas, fora os que já perderam, todos desligados e arrumados nas caixas.
nunca ninguém conseguiu fazer com que aprendessem a utilizá-los.
telefone fixo sem fios também já existiu, mas nunca o punham a carregar.
voicemail nem perguntem.
de maneiras que o único telefone que existe e que funciona está no hall de entrada, preso à parede, no móvel onde só há fotografias minhas e de pessoas que já morreram.
(creepy)
o meu namorado sugeriu instalar um sistema com uma luz, como se faz em casa de surdos, para saberem que o telefone está a tocar.
mas não me parece que vá resultar, o telefone tem uma luzinha que pisca quando elas não atendem uma chamada e elas também nunca veem essa luzinha.
eu é que sou uma má filha.
um dia passo-me e mando-lhes um telegrama.
escrito, porque o telefone não vão atender.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
a princesa vai de trombas
em míuda não gostava do carnaval.
e o carnaval de que mais me lembro foi o de 1976, quando a minha mãe e a minha tia me arrastaram para uma obscura rua de Lisboa, para ficarmos à chuva numa fila imensa, antes de entrar numa sala enorme com soalho de madeira, cheia de gente e de fatos de carnaval.
não me lembro de ter gostado de fato nenhum, muito menos do fato de princesa que elas escolheram para mim.
só me lembro de me sentir ridícula com uma tiara de plástico prateado e pedras roxas na cabeça, enchouriçada com um vestido enorme enfiado por cima da camisola de gola alta, sem hipóteses de conseguir despir a odiável camisola de gola alta, como fazia sempre que me mandavam assim vestida para a escola.
perdi a conta ao número de vezes que me mandaram para a escola de camisola de gola alta e que voltei vestida apenas de camisola interior e bata.
ainda agora não gosto do carnaval nem de camisolas de gola alta.
o fato de princesa tinha aros de plástico para armar a saia em balão e nesse dia fomos ao circo ao coliseu.
quando me sentava o vestido levantava e tapava-me a visão, o que não me chateou particularmente porque também nunca gostei de circo.
nem de mágicos nem de palhaços.
portanto, tenho uma série de fotografias vestida de princesa e de trombas, cara feia e braços cruzados em cima do peito, uma preciosidade.
há uma única fotografia em que estou a falar e dá para perceber que me faltavam os dentes da frente.
e o carnaval de que mais me lembro foi o de 1976, quando a minha mãe e a minha tia me arrastaram para uma obscura rua de Lisboa, para ficarmos à chuva numa fila imensa, antes de entrar numa sala enorme com soalho de madeira, cheia de gente e de fatos de carnaval.
não me lembro de ter gostado de fato nenhum, muito menos do fato de princesa que elas escolheram para mim.
só me lembro de me sentir ridícula com uma tiara de plástico prateado e pedras roxas na cabeça, enchouriçada com um vestido enorme enfiado por cima da camisola de gola alta, sem hipóteses de conseguir despir a odiável camisola de gola alta, como fazia sempre que me mandavam assim vestida para a escola.
perdi a conta ao número de vezes que me mandaram para a escola de camisola de gola alta e que voltei vestida apenas de camisola interior e bata.
ainda agora não gosto do carnaval nem de camisolas de gola alta.
o fato de princesa tinha aros de plástico para armar a saia em balão e nesse dia fomos ao circo ao coliseu.
quando me sentava o vestido levantava e tapava-me a visão, o que não me chateou particularmente porque também nunca gostei de circo.
nem de mágicos nem de palhaços.
portanto, tenho uma série de fotografias vestida de princesa e de trombas, cara feia e braços cruzados em cima do peito, uma preciosidade.
há uma única fotografia em que estou a falar e dá para perceber que me faltavam os dentes da frente.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
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