quinta-feira, 23 de maio de 2013

{esta é a minha família}

ainda ontem lhe dizia que às vezes parece que cresci num quadro da paula rego.
ela chamou-me fina, mas na verdade não é  por isso, é porque na minha família as mulheres são mais fortes e mais marcantes e, com o passar dos anos, predominantes, e só uma de nós se destaca pela beleza.
não que as outras sejam feias mas não têm traços de verdadeira beleza.
somos todas muito diferentes fisicamente, exceto eu e a bonita, que temos o mesmo olhar, mas ela é o cisne e eu a versão patinho feio.
não me incomoda, nunca me incomodou, sempre a adorei também por ser tão bonita.
exceto no que toca ao cabelo, invejava-lhe o cabelo.
na minha casa nunca fomos muito católicos, mas na casa da minha prima-irmã rezávamos antes de dormir e eu pedia sempre ao menino jesus para me dar um cabelo liso e comprido como o dela.
e na manhã seguinte corria para o espelho cheia de esperança.
o menino jesus nunca ouviu as minhas preces, talvez por isso hoje eu seja descrente da doutrina dele e da família dele, e só recentemente a ciência me enviou ajuda divina no que respeita a cabelos lisos.
nasci careca mas rapidamente a minha cabeça se transformou numa nuvem de lã indomável, um amontoado de cabelos eriçados, grossos como cordas de viola, que cresciam em todas as direções menos naquela para onde os deveria empurrar a gravidade.
cedo desistiram de me tentar pentear com escova e pente e passaram a molhar-me o cabelo para o prender num tótó.
todas as mulheres da minha família tinham cabelos lisos e bonitos, menos eu, a palha de aço.
o cabelo herdei-o do meu pai, que o tinha ondulado.
e por tudo isto lembrei-me deste programa que dá todas as quartas feiras na RTP1 e que não perco.

terça-feira, 21 de maio de 2013

{a avó ana}

nunca falo muito da avó ana porque não há muito a dizer.
só descobri a avó ana quando já era crescida, antes não nos tínhamos dado muito uma à outra.
quando eu era pequena as visitas à avó ana significavam tardes de brincadeira com a prima e o bolo de iogurte e o laço do avental da tia.
da avó podia contar com um cheque chorudo.
depois da minha prima nascer, a avó ana passou a viver com o filho mais velho e a nora na outra banda.
eu gostava de lá ir porque no regresso apanhávamos o cacilheiro no cais do ginjal e depois o autocarro verde de dois andares da carris da praça do comércio até casa.
sei que a avó ana era teimosa e que gostava de tudo arrumado e limpinho.
que gostava de perfumes e talcos e cremes.
e que era generosa.
a avó ana teve o primeiro filho aos dezassete e enviúvou aos vinte e um tinha acabado de ter o terceiro, o meu pai.
o avô antónio, de quem nem o meu pai antónio se lembrava, morreu num acidente de trabalho na construção da linha ferroviária.
a avó ana não teve uma vida fácil, viúva com três filhos no alentejo dos anos 40.
talvez por isso tenha aprendido a esconder os sentimentos e eu sinta que nunca cheguei a conhecê-la bem.
a avó ana usava carrapito e camisas com golas bordadas e nunca perdeu o sotaque alentejano nem largou o luto.
a avó ana era a única diabética que eu conhecia e deixava-me brincar com as tiras-teste.
dizia selada em vez de salada e pintiar em vez de pentear e fazia renda como ninguém.
ela bem nos tentou ensinar, às duas netas, mas eu nunca fui paciente nem prendada de mãos e a minha prima não passou do cordão e dos buracos.
a avó ana morreu velhinha e acarinhada e agradeço à minha prima todos os cuidados que sempre teve com ela.
ao longo dos anos os papeis foram-se invertendo e quem cuidava da avó era a neta.

domingo, 19 de maio de 2013

{dor muscular}

dizem os compêndios que o coração é um músculo.
a verdade é que o coração, quando doi, é como se fosse uma dor muscular.
primeiro uma pontada, uma guinada, a dor súbita e lancinante do músculo a rasgar.
depois fica magoado durante muitos dias, demora a sarar.
este meu músculo chamado coração já teve roturas, contraturas e contrariedades.
este meu músculo já viu uma pessoa morrer e já viu uma pessoa nascer.
às vezes parece rijo que nem pedra, mas depois esvai-se em lágrimas com um filme de qualidade duvidosa.
este meu músculo é teimoso, diz-me sempre que para a frente é que é o caminho.
na verdade temos andado por veredas para onda a vida nos empurrou, mas estamos à procura da estrada.
este meu músculo é um companheiro de todas as horas.
apesar das dores, dos apertos e arritmias, diz-me sempre que o meu destino é ser feliz, que o caminho se faz caminhando.
este meu músculo às vezes doi, mas nunca me deixou mal.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

{não dormir para não sonhar}

custa-me adormecer porque não quero sonhar.
não gosto dos meus sonhos, pelo menos daqueles de que me lembro durante o dia seguinte.
são sonhos com fantasmas do passado.
e eu não quero o passado de volta.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

{dona laura}

a minha vizinha é mais omnipresente que deus.
sempre que o carteiro toca para a minha campaínha ela consegue abrir a porta antes de mim.
tocam para mim mas ela acha-se a porteira ou guardiã do prédio ou é só doentiamente cusca, e claro que eu aposto na última hipótese.
mas hoje superou-se, aparentemente estava na rua e chegou ao mesmo tempo que o carteiro.
e eu, que estava dormir, que saltei da cama com o coração aos pulos porque o som da campaínha me causa taquicardia, que enfiei a primeira roupa que encontrei porque queria muito receber o que o carteiro me trouxe, comecei a encarar isto como um desafio, uma corrida.
ela que se prepare que vai ter luta.
vou assumir o controlo da minha campaínha.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

{pela rama}

o meu homem lida mal com os sentimentos, causam-lhe incómodo, embaraço, comichão.
o meu homem gosta assim de tudo levezinho, à superfície, pela rama.
já eu sou dada às análises profundas, aos dramas e às revoluções.
tentei algumas vezes discutir com ele, até mesmo brigar.
nunca consegui levá-lo para o campo das palavras.
nem para o campo dos olhares.
sempre que tentei vi-me sozinha no deserto.
e o que eu tenho aprendido com este homem é o exercício da leveza, do pragmatismo e da descomplicação.
à custa de muitos nervos, tenho aprendido a não remoer e deixar passar.
se há coisas que não se resolvem sem uma boa conversa, outras há que se resolvem por si mesmas, sem abrir feridas ou escarafunchar.
o que eu tenho aprendido com este homem é a respeitar as diferenças e a aceitá-lo como ele é.
o meu homem é leal como um cão e teimoso como um burro.
tem defeitos, mas tem acima de tudo nobreza de caráter.
põe-me doida quando diz que não sabe o que é isso do amor.
mas apazigua-me quando me diz que o amor deve ser o que nós temos.
e é capaz de ser mesmo.

terça-feira, 7 de maio de 2013

{até parece que é natal}

isto anda uma agitação.
ideias, ideias, ideias.
sou uma excelente gestora de sofá.
a sério.
as coisas que eu faço a partir do sofá, só a usar a cabeça e as mãos... impressive.

domingo, 5 de maio de 2013

{entretanto}

ontem, enquanto brincava com o r, dei por mim a pensar que quando ele tiver a minha idade eu terei a idade da minha tia que me criou, 80 anos.
espero que ele venha a ser melhor filho/sobrinho/neto do que eu.

{dia da mãe}

uma vez, numa aula de moral e religião -sim, eu fui das pessoas que teve essa disciplina de livre e espontânea vontade- o professor mostrou vários diapositivos e perguntava-nos que sentimentos nos despertavam as imagens.
uma das imagens era a de um casal abraçado a beijar-se numa praia ao por do sol.
sobre esta imagem ninguém tinha nada a dizer e o professor explicou que era natural porque representava a sexualidade e o amor, coisas que nós ainda não tinhamos descoberto.
durante muito tempo eu associei este episódio à minha mãe.
a minha mãe não me despertava muitas emoções porque ter uma mãe era algo desconhecido para mim.
as minhas amigas faziam coisas com as mães, como ir comprar roupa ou conversar sobre a escola ou sobre rapazes, que eu nunca fiz com a minha.
não as invejava, apenas achava engraçado e estranhava aquela cumplicidade.
para mim a minha mãe era o elemento de tensão, a pessoa que eu só beijava nas datas especiais e com quem quase não falava porque não era boa ideia irritá-la e tudo a podia irritar.
mas isso foi há muito tempo e não quero que pensem que não gosto da minha mãe.
claro que gosto, é família, cresci com ela.