recentemente veio parar aqui ao prédio uma senhora preta, vinda de angola com o seu filho teenager.
aparentemente são só os dois.
e a polícia.
é frequente aparecer cá a polícia a perguntar à mãe pelo filho e ela diz sempre que não sabe dele.
sucede que o desaparecido faz aparições regulares por esta hora e ouve músicas de preto, à preto.
e eu sou um pessoa fraca de cabeça, qualquer barulhinho irritante me causa enxaqueca.
e estas músicas são um barulhão para lá de irritante.
vou sair de casa ou ainda me dá para chamar a polícia.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
{lucas 13:30}*
cada vez tenho menos paciência para as últimas bolachas do pacote e para as últimas coca-colas do deserto.
porque a verdade é que não se acham os últimos de nada, mas antes os primeiros.
acham-se os primeiros na esperteza (saloia) e na sorte.
o que eles (ainda?) não sabem é que há sempre alguém mais esperto, mais rápido, mais atento, melhor.
e que a sorte não dura para sempre.
aliás, o ditado diz que a sorte protege os audazes, não os estúpidos.
*
porque a verdade é que não se acham os últimos de nada, mas antes os primeiros.
acham-se os primeiros na esperteza (saloia) e na sorte.
o que eles (ainda?) não sabem é que há sempre alguém mais esperto, mais rápido, mais atento, melhor.
e que a sorte não dura para sempre.
aliás, o ditado diz que a sorte protege os audazes, não os estúpidos.
*
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
{quando foi a última vez que foste a um restaurante pela primeira vez?}
aparentemente, uma das coisas que a idade nos leva é o gosto pelo risco.
e experimentar novos restaurantes pode ser arriscadíssimo.
pelo menos fora de lisboa.
e se o linguado não for de mar?
e se o bife for rijo?
e o serviço demorado?
e o preço inflacionado?
portanto, se não forem os amigos a arrastar-nos, lá vamos nós jantar aos sítios do costume, rever as pessoas do costume, comer os pratos do costume, pelos quais suspiramos o resto do ano.
não estou certa se isto é velhice ou conforto.
mas é bom.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
{la cage dorée}
regressados sãos e salvos do continente africano, este é o segundo dia que passamos no algarve.
eu fui picada por uma abelha na praia (desde quando é que há abelhas na praia?) e ele está agarrado à nova telenovela da sic, sol de inverno.
há abelhas na praia dos salgados e as garças da lagoa andam a banhos no mar e as gaivotas da praia andam a banhos na lagoa.
fui picada por uma abelha enquanto punha protetor solar nele e prontamente socorrida pelo nadador salvador.
caso não saibam (eu não sabia) a picada de abelha dói como o caraças e tive direito a spray e massagem.
estive para exagerar e dizer que não conseguia andar, que tinha de ser transportada em braços mas, provavelmente, para manter a virilidade e o orgulho intactos o meu homem é que ía alapar comigo e, além de vir a falhar o objetivo de ser elevada por uns braços morenos e musculados, ía terminar o dia a besuntar o meu homem com pomada para a hérnia.
ele está ali a fingir que ouve a conversa do amigo, de pescoço esticado para a televisão.
também está preocupado em saber quando terminará o dancing days porque amanhã à noite vamos sair...
sábado, 21 de setembro de 2013
{respect I}
estou uma valente, tomei banho em alto mar com peixes por perto.
eles colaboraram, mantiveram uma distância respeitável, apesar de ocasionalmente saltarem nas ondas, o que era desnecessário, mas compreendo que estivessem contentes.
a água do mar está quente, de marrocos ao algarve está nuns simpáticos 21-23ºC.
sou muito ciosa do meu banho, não gosto de o partilhar com bicharada em geral e com peixes em particular.
uma pessoa é uma pessoa e um peixe... cheira a peixe.
e não me venham falar em golfinhos, que podem ser muito inteligentes e bonitos e fofinhos (francamente, algum peixe merece o adjetivo fofinho??), mas que, ainda assim, são peixes.
e eu até vou ao zoomarine, quer dizer, vou jantar ao ribeirinho*, que é lá em frente e que tem o melhor frango da guia (chicken piri-piri).
ou talvez o melhor frango da guia seja o do teodósio*, não estou certa, mas se forem a este último não deixem de comer um dom rodrigo, que são deliciosos e feitos por uma confeiteira de s. brás de alportel, de seu nome mónica guerra e que também são servidos no retiro do isca*, outro bom restaurante.
eles colaboraram, mantiveram uma distância respeitável, apesar de ocasionalmente saltarem nas ondas, o que era desnecessário, mas compreendo que estivessem contentes.
a água do mar está quente, de marrocos ao algarve está nuns simpáticos 21-23ºC.
sou muito ciosa do meu banho, não gosto de o partilhar com bicharada em geral e com peixes em particular.
uma pessoa é uma pessoa e um peixe... cheira a peixe.
e não me venham falar em golfinhos, que podem ser muito inteligentes e bonitos e fofinhos (francamente, algum peixe merece o adjetivo fofinho??), mas que, ainda assim, são peixes.
e eu até vou ao zoomarine, quer dizer, vou jantar ao ribeirinho*, que é lá em frente e que tem o melhor frango da guia (chicken piri-piri).
ou talvez o melhor frango da guia seja o do teodósio*, não estou certa, mas se forem a este último não deixem de comer um dom rodrigo, que são deliciosos e feitos por uma confeiteira de s. brás de alportel, de seu nome mónica guerra e que também são servidos no retiro do isca*, outro bom restaurante.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
{morning}
eu acordo sem poder sentir o cheiro de pessoas, quanto mais vê-las ou conversar.
ele acorda sempre cedo, vai correr e volta tagarela.
a mim até sorrir ou acenar com a cabeça me custa, falar está fora de questão.
mas ele não aprende e insiste, faz perguntas.
perguntas!
claro que não respondo, fujo para a casa de banho.
saio de óculos escuros, em silêncio, como de óculos escuros, em silêncio, tento criar uma barreira mental à minha volta: não vos estou a ver, não vos estou a ouvir, vocês não existem, só o universo e eu...
esta coisa da simpatia dá cabo de mim.
agora que já acordei vou ver se durmo mais umas duas horas à sombra.
ele acorda sempre cedo, vai correr e volta tagarela.
a mim até sorrir ou acenar com a cabeça me custa, falar está fora de questão.
mas ele não aprende e insiste, faz perguntas.
perguntas!
claro que não respondo, fujo para a casa de banho.
saio de óculos escuros, em silêncio, como de óculos escuros, em silêncio, tento criar uma barreira mental à minha volta: não vos estou a ver, não vos estou a ouvir, vocês não existem, só o universo e eu...
esta coisa da simpatia dá cabo de mim.
agora que já acordei vou ver se durmo mais umas duas horas à sombra.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
{os nossos 15 minutos de fama}
não sei bem porquê acham sempre que sou inglesa ou francesa.
já uma vez acharam que eu era alemã e não gostei nada, foi uma espécie de despromoção, senti-me imediatamente uma frau merkel, gorda e desajeitada.
agora estão ali as espanholas de olho em mim por causa da túnica cortefiel.
ontem era uma loura que se derretia em sorrisos na minha direção, já me estava a sentir assediada, depois lá me lembrei que tinha uma t-shirt do hard-rock café de amesterdão.
a ele reconhecem-no.
vá-se lá saber de onde, mas é um gosto ver estrangeiros a acenar-lhe e perguntar "how are you my friend?".
somos cidadãos do mundo, é o que é.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
{la bella vita}
gostava de ser mais vaidosa.
agora estou aqui na piscina a olhar com inveja para a manicure das outras mulheres.
unhas dos pés e das mãos impecáveis.
e eu só tenho as unhas dos pés pintadas, nem me dei ao trabalho de pintar as das mãos, porque estava com preguiça e porque não valia a pena.
não sei porquê, mas não consigo ter as unhas das mãos pintadas nas férias, duram um dia e começam a descascar.
vá-se lá perceber, entre praia e piscina o meu maior esforço é levantar-me para ir buscar um cocktail, e as unhas descascam.
também gostava de ter pachorra de me maquilhar só para ir jantar a cem metros do quarto, mas não tenho, trago um rímel e um gloss e já acho uma maçada ter de me desmaquilhar antes de dormir.
ai como é boa a vida de pulseirinha no pulso!
agora estou aqui na piscina a olhar com inveja para a manicure das outras mulheres.
unhas dos pés e das mãos impecáveis.
e eu só tenho as unhas dos pés pintadas, nem me dei ao trabalho de pintar as das mãos, porque estava com preguiça e porque não valia a pena.
não sei porquê, mas não consigo ter as unhas das mãos pintadas nas férias, duram um dia e começam a descascar.
vá-se lá perceber, entre praia e piscina o meu maior esforço é levantar-me para ir buscar um cocktail, e as unhas descascam.
também gostava de ter pachorra de me maquilhar só para ir jantar a cem metros do quarto, mas não tenho, trago um rímel e um gloss e já acho uma maçada ter de me desmaquilhar antes de dormir.
ai como é boa a vida de pulseirinha no pulso!
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
{a avó céu}
hoje era o dia de anos da avó céu.
a minha avó que contava contos, apesar de se queixar que eu era a neta que menos lhe pedia que contasse um conto.
mas lembro-me de todos, avó.
e hoje, tal como tu, também eu conto contos.
a um neto que não é meu, que é só emprestado, mas que me espera ansiosamente todos os fins de semana com os livros de histórias já separados para eu lhos ler.
e eu faço batota, não lhe leio as histórias como elas são estão escritas nos livros, invento histórias sobre a história e conto-lhe os teus contos.
um dia, quando ele souber ler, talvez pegue nos livros antigos e sorria ao perceber como eu lhe contava contos só nossos e talvez me pergunte onde fui eu buscar as histórias que lhe contei.
nesse dia vou-lhe contar a história da menina que tinha uma avó que contava contos.
era uma vez, há muito, muito tempo...
a minha avó que contava contos, apesar de se queixar que eu era a neta que menos lhe pedia que contasse um conto.
mas lembro-me de todos, avó.
e hoje, tal como tu, também eu conto contos.
a um neto que não é meu, que é só emprestado, mas que me espera ansiosamente todos os fins de semana com os livros de histórias já separados para eu lhos ler.
e eu faço batota, não lhe leio as histórias como elas são estão escritas nos livros, invento histórias sobre a história e conto-lhe os teus contos.
um dia, quando ele souber ler, talvez pegue nos livros antigos e sorria ao perceber como eu lhe contava contos só nossos e talvez me pergunte onde fui eu buscar as histórias que lhe contei.
nesse dia vou-lhe contar a história da menina que tinha uma avó que contava contos.
era uma vez, há muito, muito tempo...
{talvez por ser sexta-feira treze}
estou num dia mau.
pela primeira vez na vida cheguei a pensar que afinal não sou feliz.
que está tudo mal, tudo errado e não me sinto feliz.
vou de férias e não me apetece.
é tramado fazer a mala num dia em que acho que nada me fica bem.
tomei um comprimido para a dor de cabeça, amanhã já deve estar tudo bem.
pela primeira vez na vida cheguei a pensar que afinal não sou feliz.
que está tudo mal, tudo errado e não me sinto feliz.
vou de férias e não me apetece.
é tramado fazer a mala num dia em que acho que nada me fica bem.
tomei um comprimido para a dor de cabeça, amanhã já deve estar tudo bem.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
{11/09/01}
lembro-me bem deste dia, porque foi um dos dias mais tristes da minha vida.
tal como agora, estava desempregada.
foi a última vez que entrei numa igreja para rezar.
lembro-me de entrar na farmácia e de achar estranha a conversa sobre bombas e o sadam.
só à noite soube dos ataques terroristas.
e lembro-me sempre disso, mas lembro-me mais da minha tristeza.
tal como agora, estava desempregada.
foi a última vez que entrei numa igreja para rezar.
lembro-me de entrar na farmácia e de achar estranha a conversa sobre bombas e o sadam.
só à noite soube dos ataques terroristas.
e lembro-me sempre disso, mas lembro-me mais da minha tristeza.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
{horário}
não gosto de mentir, de ter de inventar desculpas, de nunca 'ouvir' o telemóvel.
mas se dissesse à senhora da ótica, que me ligou às 14h e depois às 18h para dizer que tinham chegado as lentes, que estava a dormir, mas que se me tivesse ligado entre as 22h e as 13h me tinha apanhado acordada, era esquisito.
já não é fácil explicar aos amigos que funciono assim, que é o meu biorritmo, que estou bem, sem que me falem de comprimidos e de médicos especialistas, de deus e de esperança.
mas se dissesse à senhora da ótica, que me ligou às 14h e depois às 18h para dizer que tinham chegado as lentes, que estava a dormir, mas que se me tivesse ligado entre as 22h e as 13h me tinha apanhado acordada, era esquisito.
já não é fácil explicar aos amigos que funciono assim, que é o meu biorritmo, que estou bem, sem que me falem de comprimidos e de médicos especialistas, de deus e de esperança.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
{no escurinho do cinema} *
nos filmes as mulheres fazem amor de sutiã e nunca dão um açoite, só apanham.
é isto não é?
* título retirado da letra desta canção
{ai, ai os homens}
pobres criaturas, vê-se que que ficaram abalados com esta coisa da multa ao piropo.
hoje houve um que me silvou.
e não por eu ou ele termos silva no nome (eu pelo menos não tenho), mas porque emitiu um som tipo "fssssssss... fssssssss...".
por acaso estava junto a uma moita (podia ser a uma silva), talvez tenha sentido o chamamento da natureza e pense que é uma cobra.
tudo é possível.
afinal, sabe-se lá o que pensam os homens ou até mesmo se pensam, não é?
(agora só para os homens: o quê, não me digam que se sentiram ofendidos na vossa dignidade enquanto seres humanos por causa do meu comentário sexista da última linha! sim?! então agora já sabem o efeito que causa em nós os vossos piropos, gemidos, olhares e abusos de confiança em geral. é bom, não é? enjoy.)
hoje houve um que me silvou.
e não por eu ou ele termos silva no nome (eu pelo menos não tenho), mas porque emitiu um som tipo "fssssssss... fssssssss...".
por acaso estava junto a uma moita (podia ser a uma silva), talvez tenha sentido o chamamento da natureza e pense que é uma cobra.
tudo é possível.
afinal, sabe-se lá o que pensam os homens ou até mesmo se pensam, não é?
(agora só para os homens: o quê, não me digam que se sentiram ofendidos na vossa dignidade enquanto seres humanos por causa do meu comentário sexista da última linha! sim?! então agora já sabem o efeito que causa em nós os vossos piropos, gemidos, olhares e abusos de confiança em geral. é bom, não é? enjoy.)
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
{piropada}
o que mais me choca nisto dos piropos, é constatar que há homens que encaram o piropo como uma missão e que estão convencidos de que no fundo nós mulheres gostamos.
pessoalmente, os meus preferidos são aqueles em que o pseudo macho emite sons, pequenos estalidos, ou chupa os dentes enquanto faz um meneio com a cabeça, idêntico aos dos cavalos, sem ofensa para estes últimos.
causa-me um particular arrepio quando chegam mesmo a verbalizar "sim senhora", dando todo um novo sentido à minha vida saber que o meu aspeto tem a sua aprovação.
(sou uma mariquinhas, comovo-me com qualquer coisa, eu sei)
ainda agora passou um homem por mim na rua e gemeu baixinho e lá fiquei eu outra vez toda em pele de galinha.
gostava de lhe ter podido oferecer uma aspirina, um ben-u-ron, um supositório ou até uma cápsula de arsénico, mas infelizmente não trazia nenhum desses itens comigo.
aquilo eram dores, coitado, vá lá que já estava perto do centro de saúde.
espero que lhe tirem a temperatura.
retal.
pessoalmente, os meus preferidos são aqueles em que o pseudo macho emite sons, pequenos estalidos, ou chupa os dentes enquanto faz um meneio com a cabeça, idêntico aos dos cavalos, sem ofensa para estes últimos.
causa-me um particular arrepio quando chegam mesmo a verbalizar "sim senhora", dando todo um novo sentido à minha vida saber que o meu aspeto tem a sua aprovação.
(sou uma mariquinhas, comovo-me com qualquer coisa, eu sei)
ainda agora passou um homem por mim na rua e gemeu baixinho e lá fiquei eu outra vez toda em pele de galinha.
gostava de lhe ter podido oferecer uma aspirina, um ben-u-ron, um supositório ou até uma cápsula de arsénico, mas infelizmente não trazia nenhum desses itens comigo.
aquilo eram dores, coitado, vá lá que já estava perto do centro de saúde.
espero que lhe tirem a temperatura.
retal.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
{amuos}
de vez em quando ele amua.
muito pontualmente, é verdade, mas ainda assim amua.
ora eu, que sou do confronto e do mano a mano, tenho aprendido a ignorar os amuos dele.
o mais ridículo é que os amuos têm efeitos opostos em nós.
a ele dá-lhe para a pressa, a mim dá-me para o vagar.
os amuos dão-lhe para caminhar furiosamente.
a mim dão-me para apreciar a paisagem.
e não faço de propósito, mas parece que as minhas pernas prendem e a minha mente divaga.
e é giro, vê-lo andar tão rápido para depois ficar parado à minha espera.
{you got me and baby I got you}
o miguel, ai o miguel.
quando o conheci eu estava no princípio da adolescência e ele já não.
deambulava pela praia com uma fita de cabedal a prender o cabelo (nem acredito que tinhas cabelo comprido, já nos rimos tantas vezes por causa disto) e a guitarra na mão.
fazia sucesso entre as míudas mais velhas, mas dava-me atenção.
mostrava-me os poemas que escrevia, falavamos de filosofia e discutíamos o estado democrático.
ensinou-me os meus primeiros acordes na viola, dizia que eu era inteligente e que íamos ser amigos para sempre.
e somos.
ele era da margem sul e sem ser no verão só trocavamos cartas, que eu sou dum tempo em que as pessoas se escreviam.
reencontrámo-nos quando ele veio para a universidade e me ía buscar ao liceu, até eu ir para a universidade e ele começar a trabalhar num jornal.
anos mais tarde havia de ir trabalhar como foto jornalista para paris e trocaríamos centenas de e-mails.
o miguel tem centenas de fotos minhas, um verdadeiro documentário sobre a pessoa que fui sendo ao longo dos anos.
e eu tenho centenas de poemas dele, alguns gravados em cassetes, porque ele sempre soube consquistar-me com a voz.
entre paris e lisboa eu casei, ele teve uma filha e vivemos a vida que nos calhou.
tantos anos depois ele havia de me telefonar a meio da tarde a perguntar o que me apetecia jantar e no fim do dia de trabalho eu metia-me no comboio para a outra margem para ir jantar com ele.
e voltava tudo a ser igual, a poesia, a política, os filmes, o teatro.
tantos anos depois ele continua a ser muito popular e eu continuo a ter cíumes das outras.
foi num verão há muito tempo a primeira vez que ouvi a canção, na voz dele.
quando o conheci eu estava no princípio da adolescência e ele já não.
deambulava pela praia com uma fita de cabedal a prender o cabelo (nem acredito que tinhas cabelo comprido, já nos rimos tantas vezes por causa disto) e a guitarra na mão.
fazia sucesso entre as míudas mais velhas, mas dava-me atenção.
mostrava-me os poemas que escrevia, falavamos de filosofia e discutíamos o estado democrático.
ensinou-me os meus primeiros acordes na viola, dizia que eu era inteligente e que íamos ser amigos para sempre.
e somos.
ele era da margem sul e sem ser no verão só trocavamos cartas, que eu sou dum tempo em que as pessoas se escreviam.
reencontrámo-nos quando ele veio para a universidade e me ía buscar ao liceu, até eu ir para a universidade e ele começar a trabalhar num jornal.
anos mais tarde havia de ir trabalhar como foto jornalista para paris e trocaríamos centenas de e-mails.
o miguel tem centenas de fotos minhas, um verdadeiro documentário sobre a pessoa que fui sendo ao longo dos anos.
e eu tenho centenas de poemas dele, alguns gravados em cassetes, porque ele sempre soube consquistar-me com a voz.
entre paris e lisboa eu casei, ele teve uma filha e vivemos a vida que nos calhou.
tantos anos depois ele havia de me telefonar a meio da tarde a perguntar o que me apetecia jantar e no fim do dia de trabalho eu metia-me no comboio para a outra margem para ir jantar com ele.
e voltava tudo a ser igual, a poesia, a política, os filmes, o teatro.
tantos anos depois ele continua a ser muito popular e eu continuo a ter cíumes das outras.
foi num verão há muito tempo a primeira vez que ouvi a canção, na voz dele.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
domingo, 1 de setembro de 2013
{était en septembre}
parece que que agora setembro já não é verão.
mas era.
setembro era o mês da fonte da telha, o mês dos mergulhos e do comboio até à costa da caparica para ir às compras com a avó.
era o mês do por do sol lado a lado com as gaivotas, o mês das noites em que já se vestia uma camisola para ir puxar as redes na praia com os pescadores e voltavamos para casa com sacos de peixe ainda vivo.
setembro era o mês das festas em casa dos vizinhos, de beber às escondidas e do meu amigo miguel tocar guitarra e de eu ter cíumes das outras raparigas.
setembro era o colo do pai, as aventuras com as primas, gargalhadas e tarefas partilhadas em família.
setembro eram gelados, peras, figos e melancias.
setembro era o mês das excursões à fonte de argila e dos jogos de cartas.
setembro era o mês de ler romances de cordel, porque eram os únicos livros que se vendiam na vila e eu já tinha lido todos os outros que tinha levado na mala.
setembro era infinito e dourado como a minha pele tisnada.
e um dia conto-vos sobre aquele setembro em que um dos pescadores teve uma paixoneta por mim e me protegia de todos os peixes aranha, reais e imaginários, e de como a minha prima gozava com ele e de como eu o achava tão doce que o deixei roubar-me um beijo.
mas era.
setembro era o mês da fonte da telha, o mês dos mergulhos e do comboio até à costa da caparica para ir às compras com a avó.
era o mês do por do sol lado a lado com as gaivotas, o mês das noites em que já se vestia uma camisola para ir puxar as redes na praia com os pescadores e voltavamos para casa com sacos de peixe ainda vivo.
setembro era o mês das festas em casa dos vizinhos, de beber às escondidas e do meu amigo miguel tocar guitarra e de eu ter cíumes das outras raparigas.
setembro era o colo do pai, as aventuras com as primas, gargalhadas e tarefas partilhadas em família.
setembro eram gelados, peras, figos e melancias.
setembro era o mês das excursões à fonte de argila e dos jogos de cartas.
setembro era o mês de ler romances de cordel, porque eram os únicos livros que se vendiam na vila e eu já tinha lido todos os outros que tinha levado na mala.
setembro era infinito e dourado como a minha pele tisnada.
e um dia conto-vos sobre aquele setembro em que um dos pescadores teve uma paixoneta por mim e me protegia de todos os peixes aranha, reais e imaginários, e de como a minha prima gozava com ele e de como eu o achava tão doce que o deixei roubar-me um beijo.
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